10 de jun de 2009

Sobre uma loira forte


Ela tinha dezoito anos, cabelos curtos e escuros, pesava apenas quarenta e cinco quilos. Ele era bastante feminino, negro, magro, tatuagem indecifrável no pulso. Não tinha educação formal, mas foi ele quem ensinou a menina a gostar de Marguerite Duras, Clarice Lispector, Kafka, Agatha Christie, dentre outros. Certo dia, ele insistiu que a menina comprasse um livro chamado Os irmãos Karamázov, disse que ela precisava conhecer os autores russos. Ela comprou, mas jamais terminou a leitura, o livro ficou esquecido na estante, ela se justificava dizendo que precisava ler os indicados para o vestibular. Era um tempo difícil e a menina se escondia em banheiros, tinha sofrido sua primeira decepção amorosa e, no meio de tudo isso, descobriu aquele pequeno sebo, seu novo esconderijo. No entanto, pouco tempo depois, mais uma tristeza: a loja foi fechada e ele já não estava lá.
Muitos anos se passaram. Ela tinha vinte e sete de idade, cabelos loiros e longos, pesava cinquenta e três quilos. Caminhava sozinha por um shopping, não morava mais na sua cidade, sentia uma melancolia difícil de explicar. De repente, uma surpresa: ele ainda magro, negro e feminino, apareceu na sua frente e, depois de um sorriso, começaram a conversar. Ele lhe contou sobre o novo serviço e revelou que recortava e guardava, numa pasta, todas as fotografias dela que apareciam no jornal. Ela agradeceu e se despediu emocionada. Quando chegou em casa, teve que arrumar as malas e chorou, chorou muito sem saber o porquê.
Entre roupas, dores, fotografias e decepções sem motivos precisos, podia ser percebido um livro. Sim, estava na hora de Os irmãos Karamázov conhecer.

13 comentários:

pig disse...

sei de quem você está falando...estive lá com você, certa feita.

bonito mesmo, até em mim alguma coisa se mexeu.

aeronauta disse...

Que bom que você voltou! E com um texto tão bonito, tão forte!
"Os irmãos Karamazovi" é livro de uma vida inteira, inteira...

maria guimarães sampaio disse...

Lindo, lindíssimo seu texto.
Li cedo "os irmãos", meu pai se entusiasmou e me deu a obra completa de Dostievski da Companhia Aguilar Editora, em 1964!

Maria Muadiê disse...

Lindo , lindo....

que bom, chegou em suas mãos a antologia.
beijo

Lidi disse...

Renata, que texto lindo é esse? É confissão? É ficção? É LITERATURA! É ARTE! Admiro você!

Andréia M. G. disse...

Renata, entrei aqui para desejar boas férias e... que bom ver que este blog é seu cantinho precioso, afinal, não consegue ficar muito tempo longe dele. Adorei seu texto. Fiquei curiosa p/ ler Os irmãos Karamázov. Vou colocar na minha lista, que já anda beeeeem extensa.

Bjos!

P.S.: Vou passar o São João em São Paulo e Campos do Jordão com meu love! Precisava de uma folguinha para abrir as pétalas! rs

Sebo Bandini disse...

Texto lindo, Renata. Um beijo.

José Ricardo da Hora Vidal disse...

Renata, você surpreende sempre com seus posts... Aliás, agora eu fiquei na dúvida: seria este post o embrião do segundo volume dos "Vestígios"? A impresão que tive é que eu estava lendo um resumo de um capítulo, em que autora-personagem-narradora lança mais uma peça no mosaico da biografia da senhorita B. Beijos do teu fã

Ricardo Vidal

Chorik disse...

Tua sensibilidade está presente mais uma vez nesse lindo texto. Há certas fases na vida de todos nós em que a melancolia se instala sem aviso prévio. Aí alguns reencontros promovidos pelos anjos do acaso nos acordam para a importância que temos para outro alguém, de quem nem suspeitávamos ter conquistado a admiração, importância que talvez nem mesmo nós nos demos, e nos convidam a prestar mais atenção nas coisas que realmente valem a pena na vida.
Cada vez mais seu fã.

Bárbara disse...

Que texto emociante, Renata!
Bela cena para um filme e uma instigante introdução para um conto!(rs)
Uma excelente supresa para pessoas que, como eu, são viciadas no seu blog.
Bjs!

Renata Belmonte disse...

:) Obrigada! :)

vladimir queiroz disse...

Excelente texto. Também tive a impressão que ele faz parte de algo em construção. Os russos são maravilhosos, bela escolha. Vc está escrevendo um romance?
Abs,
Vladimir

Nilson disse...

Belo texto, cara senhorita!! "Os irmãos Karamazóvi" é demais. Os russos são os caras!!!