7 de out de 2009

No envelope, uma carta e esta fotografia

Querida Senhorita B.,
Eu sempre lamentei o fato de nunca ter visto o seu rosto. Mas, hoje, confesso achar melhor assim. Porque seria muito difícil para mim falar tudo isso olhando para seus olhos, observando a lenta transformação deles. Na última vez que fiz alguém passar por coisa semelhante, fui tomada por uma dor intensa, culpo-me até hoje pelo ocorrido. Não, não há um dia em que eu veja meus olhos no espelho e não pense nisso. Tenho olhos verdes e pequenos que se tornam grandes diante das adversidades, uma das minhas mães sempre disse ter medo deles, parece que carregam toda a impetuosidade do mundo. Meus olhos miúdos crescem quando assustados, talvez porque não suportem a idéia de subserviência, gostam de encarar com firmeza seus opositores. Meus olhos são da mesma cor que os das minhas tias maternas. Só que eu não os herdei delas. Tenho os olhos de meu pai.
Já tinha algum tempo que eu não era obrigada a agir desta maneira. Destaco: obrigada. Nesta vida, há coisas que se impõem, têm força própria. Escrever é uma delas. Não, não estou mudando de assunto, desculpe se lhe causo qualquer ansiedade por não ser direta como deveria. Sempre perco um pouco da objetividade e da clareza de raciocínio, após noites sem dormir. E, nesta hora, é justamente de clareza que preciso, já que morro de medo de não dizer as coisas do modo que deveria e acabar sendo mal compreendida. A verdade é que os sintomas voltaram a aparecer e, apesar de eu ter alguma intimidade com eles, fingi não perceber o que estava acontecendo. Mas, nesta última madrugada insone, o incômodo ficou evidente. E, apesar de não ter pronunciado uma palavra, fui obrigada a reconhecer: Não tem mais jeito. Chegou mesmo a hora de eu deixar o Vestígios da Senhorita B.
Sou dona de invernos e verões muito próprios, acho que você sabe disso. No meu universo, a Riviera Francesa e o Leste Europeu são lugares contíguos. Por isso, não suporto a idéia de espaços sem lei. São as regras que me orientam, que ditam meu rumo, que me retiram de qualquer tristeza e melancolia. A vida não pode se brincar, pois em plena luz do dia se morre; pregou Clarice. Eu brinco com a minha vida porque sei o limite dela, respeito minhas próprias regras. Já que não suporto o imprevisível, torno-me súdita e rainha da minha própria tirania. Devo confessar que sempre me encantaram e perturbaram estes filmes e livros onde o final jamais é dito. Quando comecei o Vestígios, não assinei qualquer autocontrato ou mesmo fui signatária de um pacto. Permiti-me viver o projeto de forma livre. Durante quase todo o tempo, até mesmo ignorava em que etapa estava. Apenas se sabe o que é o meio quando existe referência do que significa o fim. Dentro de mim, tinha a segurança de que, um dia, sentiria a hora certa de acabar. Setembro chegou trazendo enormes demandas e o mesmo incomodo contínuo, revelador. Sou uma mulher das leis, repito. Na última madrugada insone, a certeza: é preciso aceitar a morte, ter respeito a esta lei, ela é regra maior, verdadeiro imperativo. E foi aí que compreendi: devo mesmo me despedir do Vestígios.
Acredito que as coisas existem e acontecem mesmo que não sejam verbalizadas, não é a linguagem que lhes confere existência, os criptotipos não clamam pelo seu reconhecimento, sobrevivem silenciosos sem qualquer luta, aceitam sua condição e o seu lugar. Mesmo sabendo disso, preciso deixar algo claro: se pareço nostálgica ou taciturna é por pura força do hábito, tenho um defeito de fábrica, nunca aprendi a escrever feliz, apesar de não acreditar num mundo sem redenção. E, sempre quando falo em morte, quero dizer renascimento, fui batizada de maneira muito apropriada, mesmo que este meu R. tenha sido uma escolha aleatória com o único objetivo de me fazer parte de um clã. Sim, já que falo de identidade, retomo o assunto: se pareço muito nostálgica ou taciturna é apenas na escrita, sou dada aos exageros e, na vida das noites e dias, ignoram que sou escritora e até acham muita graça dos meus exageros de aniversários, todos eles festivos e contentes, todos eles bem diferentes daqueles oriundos do meu defeito originário. E já que tenho que ser sincera sobre esta despedida, preciso contar algo muito especial que aconteceu comigo. Lembra que eu ficava tentando definir o que é felicidade? Então: numa noite qualquer, caiu um temporal aqui em São Paulo. E, na manhã seguinte, fui obrigada a acordar muito cedo para ir apresentar um trabalho. Devia ser umas sete horas e eu estava numa movimentada avenida quando, de repente, percebi, no meio de milhões de prédios modernos, uma pequena casinha de estilo colonial. Na varanda desta, uma senhora oriental enxugava o chão e sorria de maneira doce para os que passavam. Fiquei em transe com a cena e parei o carro para comungar com a atmosfera de total plenitude. Tá, tudo bem: é mentira, eu não parei o carro, estava muito atrasada e precisava apresentar o tal trabalho. Só que, desde este dia, não parei de pensar no episódio e acabei aceitando que, apesar de não ter como capturar o sentido da palavra felicidade, ela é algo muito parecido com enxugar o chão da minha varanda, após uma noite de tempestade.
No ponto de partida dessa história, ou seja, na ocasião do seu abandono, encontrei o bilhete que você escreveu. Por isso, esta carta? Não, apesar de respeitar o princípio da reciprocidade. Faço isso para arrolar seus bens, inventariar tudo que aquilo que é nosso e que eu cuidei, nesta sua ausência. Pode ficar com o B., na minha volta, você me devolve. Sua cama, seu vestido e seu livro permanecem intactos, olhe para a sua casa e reconheça como ela foi bem preservada. Receba e trate com o mesmo amor o que tenho de mais precioso: o afeto dos meus e-amigos. Não, mas nem pense nisso: eles são meus e eu os levo no peito aonde quer que eu vá. Ah, tá bom. Desculpe esse meu ato de egoísmo, retiro o que disse. Os e-amigos podem ficar com as duas, eles não precisam se dividir, a verdadeira amizade apenas se multiplica, nunca fui boa em matemática e acabo esquecendo disso. Eu sei: essa frase pareceu meio boba, mas ela é verdadeira e, no final de tudo, é apenas isto que importa.
Não, não encare meu ato como um abandono ou uma fuga, não quero ver nenhum pesar nos seus olhos, fique mesmo de costas, qualquer despedida é difícil. Receba todo o meu amor e guarde esta fotografia como a primeira lembrança da minha viagem em busca daquilo que já lhe é conhecido. Muito obrigada por tudo, mesmo. Não levo comigo qualquer mala ou dor. Tenho apenas uma pequena mochila e, no bolso, um breve bilhete seu com o mais importante dos avisos: Seja feliz. Sejam felizes. Não, não há sonho que morra sem deixar vestígios.
Há sempre o trem de volta? Eu a espero, no portão do meu desembarque, se a hora chegar.
Beijos,
R.