28 de dez de 2008

Sobre inícios e fins


" Uma história não tem princípio nem fim: arbitrariamente, escolhe-se o momento vivido de onde se deve olhar para trás ou para frente. Eu digo "escolhe-se" com o orgulho de um escritor profissional que tem sido elogiado - quando observado com seriedade- pela sua habilidade técnica, mas será que, de fato, escolho aquela noite escura e úmida de janeiro no Common, em 1946, a figura de Henry Miles atravessando, inclinada, o grande rio de chuva, ou essas imagens que me escolhem?"

Graham Greene



O maior desafio do escritor é saber a hora de abandonar o passado. E, mesmo compreendendo que a literatura sempre demandará muito da menina que fui, escolho olhar para frente. Consinto o futuro, aceito os riscos da minha própria condição. Mudo de postura: passo a acreditar no humano. Somente desta forma, não terei como duvidar de mim. Fecho o Vestígios em 2008 com o início do extraordinário romance Fim de caso. Sim, finalizo com um início. Talvez, em 2009, comece com um fim. Eu e a Senhorita B. desejamos para vocês tudo de melhor para esse ano que gostamos de pensar que se inicia. Eu e a Senhorita B. desejamos tudo de melhor para vocês nesse ano que gostamos de pensar que está sendo finalizado. Voltamos no final de janeiro. Desta vez, espero que de mãos dadas.

24 de dez de 2008

Por via das dúvidas...


Querido Papai Noel,



Eu sei... Há muito tempo que não escrevo para você. Mas vamos ser sinceros: eu tive motivos suficientes para me aborrecer. Passei todo o ano de 1990 me comportando direitinho e você apronta aquilo comigo? Ora, era muito natural que eu desejasse uma prancha de surfe. Só assim poderia ser parecida com os personagens de Top Model, minha novela preferida da época. Ah... Existia alguém com oito anos que não queria ser filho de Gaspar? Confesso que ainda hoje acho muito legal o nome de suas crias(Elvis, Ringo Starr, Jane Fonda, Olívia e Lennon). Numa ocasião, sugeri até que meus pais inventassem outro nome mais cool para mim, mas eles não acharam tal idéia tão brilhante assim... Pois então: como é que eu deveria me sentir naquele fatídico 25 de dezembro? Pedi uma prancha de surfe e ganhei uma de isopor com um tubrarão desenhado? É verdade: parecia mesmo que o senhor estava de gozação com a minha cara. Como eu poderia deslizar nas ondas e despertar a inveja dos meus primos com aquela coisa vergonhosa?

Apenas depois que cresci um pouco, compreendi: não foi culpa do senhor. Meus pais devem ter interferido na sua decisão. Sempre foram medrosos, acho que tinham horror só de pensar que eu poderia ir para alto mar. Além do mais, vamos ser francos: meus pais não são exatamente o tipo de gente que gostaria de ter filhos surfistas. Naquele tempo, acho que eles até pensavam que isto era hobby de pessoas que não gostam de estudar.

Sim, eu e meus pais crescemos. No entanto, apesar de não ter se concretizada a possibilidade de eu me tornar surfista, o medo de meus pais não foi aplacado. Todos sabem: jamais fiz escolhas fáceis. Apaixonei-me no Direito pelo seu ramo mais marginalizado: Direitos Humanos. Sim, também adoro Tributário. Mas acabei não insistindo na idéia de passar num concurso público. Para piorar, descobri que nasci para escrever literatura. E é dela que vivo, mesmo não sendo ela o meu recurso de subsistência.

Sabe, Papai Noel? Outro dia, vi na televisão uma entrevista com o John Casablancas. E, quando perguntaram para ele sobre o seu filho Julio (vocalista do Strokes), este acabou confessando: meu menino sempre foi muito excêntrico, fiquei surpreso com o seu sucesso. Confesso que achava que essa sua idéia de montar uma banda não ia resultar em nada. Até já estava separando uma parte maior do meu dinheiro para deixar de herança para ele! Na mesma hora que escutei isso, constatei: é isso que minha família pensa sobre mim. Seria muito legal se as coisas que eu faço também dessem super certo.

Pois bem: escrevo para você com o intuito de pedir desculpas. E também para pedir de Natal que tudo que venho fazendo dê bons resultados. Sim, porque tenho tanta certeza do que quero que nem consigo cogitar em desistir. Acho que minha vida perderia o sentido, sou muito identificada com meus objetivos.

Também queria pedir muita paz, saúde e alegria para todos que me rodeiam. E, principalmente, para os leitores do Vestígios. Sim, porque é o mínimo que eles merecem depois de ler uma carta tão longa.

Paro por aqui. Sua lista é grande, não quero mais incomodar. Mas espero mesmo que todos os meus pedidos sejam acatados. Caso contrário, no próximo ano, não haverá uma tentativa pública de conseguir suas desculpas. (rs)
Um beijo e um Natal cheio de trabalho,
Renata

22 de dez de 2008

Nós fomos!



Madonna

STICKY AND SWEET

20.12.2008

18 de dez de 2008

A segunda história


No post Nossa Senhora das Asas de Borboletas, eu revelei que três histórias, invariavelmente, tomam conta dos meus pensamentos quando estou prestes a dormir. Fosse eu psicanalista ou vidente, encontraria explicações para tal recorrente fato e as trataria como verdades absolutas. Sendo eu escritora, resta-me a possibilidade de transformar em ficção tudo aquilo que me comove ou incomoda, mesmo sabendo que não é justo atribuir à literatura o peso de ser remédio para meus males, ou mesmo, minha cura. Deixem-me, portanto, com minhas maluquices. Preciso voltar ao passado para poder contar a segunda história.

Primeiro de Janeiro de 2003. Sou convidada por Érica, uma das minhas melhores amigas, para ir na Praia do Farol da Barra. Resisto. Digo que não sou fã de areia, argumento que detesto tomar sol. Minutos depois, acabo cedendo aos seus apelos. Érica é uma pessoa extraordinária, verdadeiramente rara. Sua companhia já é um bom motivo para me fazer mudar de idéia. Além disso, sempre que posso, evito lhe dizer nãos.

Estamos sentadas numa cadeira alugada. Sinto-me irritada com a enorme quantidade de pessoas que estão na praia, resolvo levantar para dar uma caminhada. Ando alguns minutos sem planejar meu destino. De repente, surge na minha frente um menino.

Eu não me lembro do seu rosto. Mas sei que era moreno e devia ter uns quatro anos. Ele chora sem parar, me pede ajuda, diz que se perdeu da mãe. Fico preocupada: a praia está lotada. Penso em procurar a polícia. Logo depois, desisto. Decido: a melhor coisa que posso fazer é ficar parada com o menino. Em algum momento, sua mãe irá nos encontrar. Resolvo comprar para ele um picolé.

Uma hora já havia se passado. Fico preocupada: a criança me disse que era de São Paulo, desenhou na areia sua casa e família. E se ninguém aparecesse? O que eu deveria fazer? Estava começando a ficar nervosa quando escuto um grito e alguém pega a criança pela mão.

Eu não sei se consigo descrever a cena do reencontro entre a mãe e o filho. A pobre mulher tremia, estava despedaçada, ajoelhou-se na areia e agradeceu a benção alcançada. Quando se deu conta de que eu era quem tinha cuidado do menino, ela me abraçou e, com força, falou:

-Este seu ato será a medida de todos os seus próximos dias. Tenha certeza: neste ano, se inicia o melhor tempo da sua vida.

Sendo quem sou é estranho o que vou dizer. Mas é verdade: logo após essas palavras, senti-me diferente. Sim, tenho certeza: Deus também as escutou.

16 de dez de 2008

Era uma vez a vida...


Tenho o enorme desejo de assistir a dois filmes raros. O primeiro deles é Trinta anos esta noite do Louis Malle. O segundo é Era uma vez em Tóquio do Ozu. Durante todo o ano, procurei tais raridades para locar ou comprar, mas não encontrei. Há uma cena deste filme do Ozu que foi narrada pelo João Moreira Salles no seu excelente Santiago e que nunca saiu da minha cabeça. Acho que é assim: uma personagem olha para a outra e faz a seguinte pergunta:

- A vida não é uma decepção?

Eis que esta com um grande sorriso no rosto, responde:

- Sim, é sim.

Sim, é sim.

14 de dez de 2008

Noções de Direito


Naquela época, ele devia ter uns seis anos. Era magrinho e bem miudinho. Cotidianamente, fazia favores para todos os outros moradores da casa. Ajudava o pai a carregar sua pasta de trabalho, pegava água na cozinha para a mãe, deixava a irmã mais velha (e muito medrosa!) dormir com ele na sua cama. Só que, um dia, com ar de seriedade, convocou seus familiares para uma reunião.

- O que foi meu filho?- questionou a mãe sempre preocupada com doenças.

Ele nada respondeu. Preferiu entregar, logo de uma vez, o pequeno papel amarelo. Neste se lia:

"Nas minhas férias, não vou fazer fafores."

Sim, ele estava ainda aprendendo a ler e escrever. Mas, desde então, já sabia muito bem o que eram direitos trabalhistas.
(Gente, essa história é verdade! O menino personagem é meu irmão!)

11 de dez de 2008

Nas minhas férias...


Pensei em tirar férias. Decidi que elas iriam começar na última segunda-feira. Mas como tudo meu que sempre irá começar na segunda-feira, nada aconteceu. Fiquei preocupada com um artigo que tenho que produzir, senti-me incomodada com o Vestígios desatualizado, pensei na morte, descobri que preciso fazer mercado. Irritei-me com tudo isso, recriminei-me por ser tão tensa e me obriguei a entrar de férias. Para criar um clima, saí ontem de sandália havaiana (ou japonesa para meu pai e Bernardo). No salão, meu cabeleleiro perguntou se eu estava com o pé doente. No cinema, encontrei com uma professora que quero que seja minha orientadora. Quase morri de tanta vergonha. Não, eu não tenho o passe livre das gringas que visitam todo o Brasil de sandália e microshorts. Não, eu não sou o tipo de pessoa que pode pensar que está de férias. Só fico feliz no primeiro minuto. Logo depois, me aborreço, pois detesto não ter o que fazer. Na infância, quando visitava a ilha, morria de tédio. Só melhorou quando descobri que minha casa de veraneio ficava defronte de uma biblioteca pública. Achava um saco toda aquela dinâmica de praia e conversas com vizinhos-que-nunca-diziam-nada. E, no início das aulas, ainda tinha que escrever uma redação mentindo sobre o meu maravilhoso verão. Que imposição social é essa de obrigar todo mundo a entrar de férias? Por que as pessoas ficam dizendo que eu sou uma menina amarela?
Não, nesse verão, eu não vou me bronzear na praia. Não, eu não vou usar um vestido leve e caminhar pela areia como se estivesse numa propaganda de Sundown. Talvez até passe o Reveillón em casa. O que vou fazer? Ainda não sei. Talvez até tire umas férias. Só para ler e escrever.

7 de dez de 2008

Nossa Senhora das Asas de Borboletas


Quase todas as noites, naqueles instantes em que lutamos para não adormecer, três histórias, invariavelmente, tomam conta dos meus pensamentos. E, hoje, escolhi falar de uma delas. Faço isso, porque ainda não encontrei uma explicação razoável para o fascínio que ela exerce sobre mim. Faço isso, porque preciso dividir minha perplexidade, expor esta dor que ainda não conheço o nome.
Em julho deste ano, pouco antes da minha mudança, meus pais retornaram de uma longa viagem. E, enquanto eu observava minha mãe desarrumar suas malas, um pedaço de cartolina que estava entre suas roupas, chamou minha atenção. Perguntei o que era aquilo. Imediatamente, ela respondeu: era uma imagem de Nossa Senhora. Preparem-se para ouvir uma das histórias mais tristes que já escutei.
Minha mãe caminhava pelas ruas de Praga, quando foi abordada por uma mulher. Esta lhe implorou ajuda, pediu que comprasse uma das imagens que tinha nas mãos. Custaria apenas três euros. Minha mãe assentiu. E acabou adquirindo um pedaço de cartolina, onde estava representada uma Nossa Senhora. Sim, até este ponto, esta parece uma história comum, corriqueira para nossa realidade. Não fosse o fato de a imagem ter sido confeccionada pelas crianças miseráveis do deserto da África, crianças que nada tinham para comer, crianças que precisavam de forma desesperadora daquele dinheiro. Crianças que, por não terem a quem recorrer, passavam seus dias caçando borboletas e, após matá-las, retiravam suas asas para servirem de matéria prima para as imagens das santas que precisavam representar.
A fotografia acima não faz jus à imagem. Seu colorido é intenso, vibrante, vivo. E sempre que a observo sinto uma dor física, um incômodo terrível. Porque ela representa a morte, o desespero, é mistura de gritos. Porque, mesmo com tudo isso, ela possui rara beleza, é arte de primeira, dessas que é muito difícil de encontrar.
Denominei a imagem de Nossa Senhora das Asas de Borboletas. E escrevi uma pequena oração:
Nossa Senhora das Asas de Borboletas, tão cheia de beleza
Preciso dizer: uma vida não se faz apenas de perdas
E de nada adiantam palavras, ou mesmo, o sacrifício da natureza
Se os que tanto precisam não recebem o seu olhar
Nossa Senhora das Asas de Borboletas, é muito difícil estar vivo
Portanto, acabe com nossos medos
Ouça os apelos e gritos
Nossa Senhora das Asas de Brorboletas, não queremos retirar as asas dos outros
Para podermos sonhar
Um Feliz Natal para todos e um excelente 2009. Resolvi tirar férias:)

3 de dez de 2008

O preço de cada um


Constantemente, travo com meu irmão a mesma discussão. Ele insiste em dizer que todo mundo tem um preço. Eu insisto em discordar dele. Quase sempre, nessas horas, ele me oferece dinheiro para eu fazer coisas malucas. Um exemplo? Recentemente, ele me prometeu uma boa quantia para eu abraçar com força um desconhecido na fila do cinema e falar para tal pessoa que eu a amava. Sim, fiquei tentada. Confesso: até tentei abraçar o tal estranho. Mas, na hora H, não consegui. Amarelei mesmo. Nesse dia, acabei provando, por vias tortas, a minha tese: não, nem todos têm um preço. Pelo menos, eu ainda não sei o meu.
Mas, sim, não posso negar. A fotografia acima revela que meu irmão ganhou um forte aliado para a comprovação de sua tese. Mikhail Gorbachev, garoto propaganda da Louis Vuitton? Ops! Ele não tinha morrido? Ops! Qual terá sido o seu preço?

1 de dez de 2008

Perdendo pessoas


O melhor final para ela era aquele em que todos morrem. Pois a morte de todos significava mistura de perfumes e acabava tendo um cheiro doce: lágrimas não existiriam para salgar tal odor. Além disso, ela pensava que apenas assim poderiam ficar eternamente juntos. Sim, sempre foi dada à ilusões. Mas de que mesmo, fora carnes, é feito o humano? Com a mala cheia de medos, ela guarda suas dores no corpo. E consente fugir para um lugar remoto onde o mundo é como deveria ser. Para não perder pessoas porque não quer escadas no escuro descer. Todos felizes, numa fotografia distante. É o que leva no bolso a Senhorita B.