18 de dez de 2008

A segunda história


No post Nossa Senhora das Asas de Borboletas, eu revelei que três histórias, invariavelmente, tomam conta dos meus pensamentos quando estou prestes a dormir. Fosse eu psicanalista ou vidente, encontraria explicações para tal recorrente fato e as trataria como verdades absolutas. Sendo eu escritora, resta-me a possibilidade de transformar em ficção tudo aquilo que me comove ou incomoda, mesmo sabendo que não é justo atribuir à literatura o peso de ser remédio para meus males, ou mesmo, minha cura. Deixem-me, portanto, com minhas maluquices. Preciso voltar ao passado para poder contar a segunda história.

Primeiro de Janeiro de 2003. Sou convidada por Érica, uma das minhas melhores amigas, para ir na Praia do Farol da Barra. Resisto. Digo que não sou fã de areia, argumento que detesto tomar sol. Minutos depois, acabo cedendo aos seus apelos. Érica é uma pessoa extraordinária, verdadeiramente rara. Sua companhia já é um bom motivo para me fazer mudar de idéia. Além disso, sempre que posso, evito lhe dizer nãos.

Estamos sentadas numa cadeira alugada. Sinto-me irritada com a enorme quantidade de pessoas que estão na praia, resolvo levantar para dar uma caminhada. Ando alguns minutos sem planejar meu destino. De repente, surge na minha frente um menino.

Eu não me lembro do seu rosto. Mas sei que era moreno e devia ter uns quatro anos. Ele chora sem parar, me pede ajuda, diz que se perdeu da mãe. Fico preocupada: a praia está lotada. Penso em procurar a polícia. Logo depois, desisto. Decido: a melhor coisa que posso fazer é ficar parada com o menino. Em algum momento, sua mãe irá nos encontrar. Resolvo comprar para ele um picolé.

Uma hora já havia se passado. Fico preocupada: a criança me disse que era de São Paulo, desenhou na areia sua casa e família. E se ninguém aparecesse? O que eu deveria fazer? Estava começando a ficar nervosa quando escuto um grito e alguém pega a criança pela mão.

Eu não sei se consigo descrever a cena do reencontro entre a mãe e o filho. A pobre mulher tremia, estava despedaçada, ajoelhou-se na areia e agradeceu a benção alcançada. Quando se deu conta de que eu era quem tinha cuidado do menino, ela me abraçou e, com força, falou:

-Este seu ato será a medida de todos os seus próximos dias. Tenha certeza: neste ano, se inicia o melhor tempo da sua vida.

Sendo quem sou é estranho o que vou dizer. Mas é verdade: logo após essas palavras, senti-me diferente. Sim, tenho certeza: Deus também as escutou.

11 comentários:

Bernardo Guimarães disse...

eu sou meio assustado; se uma pessoa me diz um troço desses, me mijo todo, ali, na hora!
que história linda, tem de tudo. vc é mágica.

Ricardo disse...

Oi,
obrigado pela visita :)

postagem arrepiante...
cenário de praia lotada dá medo...

mas o desenlace, sem palavras.

Chorik disse...

Renata, não imaginei que a segunda história fosse tão arrepiantemente linda quanto à da Nossa Senhora das Asas de Borboletas. Seu coração revela sua grandeza diante de nós com o que nos conta, e dito assim isso soa meio piegas, eu sei. Não pediu opinião, mas peço licença para comentar duas coisas:
1)Não tenho dúvidas, seu movimento ao ir com Érica não foi acaso. Você foi instrumento, porque assim se gabaritou a ser, foi o anjo da guarda do menino que a convocou.
2)A força das palavras, ditas com sinceridade e bondade, são jatos de luz que descobrem os melhores caminhos. Soubéssemos o poder do bendizer, calaríamos diante de nossa maledicência.
3) Você só colheu o que plantou. Ação e reação. Simples assim.
Bj e ótimo findi.

aeronauta disse...

Lindo, lindo, lindo.

maria guimarães sampaio disse...

Arrasou, Renata!
Beijo de Maria

Lidi disse...

Renata, tua história me emocionou! Faço minhas as palavras de Chorik.
Beijo.

José Ricardo da Hora Vidal disse...

Cara Renata Só você paar pegar estes pequenos flagrantes do cotidiano para transfomar em histórias e comover sem ser piegas. Realmente Deus, os anjos e os santos devem ter ouvido aquilo e dito amém na mesma hora... Beijos e baraços fraternos

Isaque Viana disse...

Muito bacana isso, Renata.
Tenho certeza que Ele ouviu.
Um beijo procê e pra Senhorita B.

Mayrant Gallo disse...

Lindo texto, linda foto!

Renata Belmonte disse...

Vocês são uns fofos!!!!
Bjs para todos!

M. disse...

Arrepiei. Bjs. M.