24 de dez de 2008

Por via das dúvidas...


Querido Papai Noel,



Eu sei... Há muito tempo que não escrevo para você. Mas vamos ser sinceros: eu tive motivos suficientes para me aborrecer. Passei todo o ano de 1990 me comportando direitinho e você apronta aquilo comigo? Ora, era muito natural que eu desejasse uma prancha de surfe. Só assim poderia ser parecida com os personagens de Top Model, minha novela preferida da época. Ah... Existia alguém com oito anos que não queria ser filho de Gaspar? Confesso que ainda hoje acho muito legal o nome de suas crias(Elvis, Ringo Starr, Jane Fonda, Olívia e Lennon). Numa ocasião, sugeri até que meus pais inventassem outro nome mais cool para mim, mas eles não acharam tal idéia tão brilhante assim... Pois então: como é que eu deveria me sentir naquele fatídico 25 de dezembro? Pedi uma prancha de surfe e ganhei uma de isopor com um tubrarão desenhado? É verdade: parecia mesmo que o senhor estava de gozação com a minha cara. Como eu poderia deslizar nas ondas e despertar a inveja dos meus primos com aquela coisa vergonhosa?

Apenas depois que cresci um pouco, compreendi: não foi culpa do senhor. Meus pais devem ter interferido na sua decisão. Sempre foram medrosos, acho que tinham horror só de pensar que eu poderia ir para alto mar. Além do mais, vamos ser francos: meus pais não são exatamente o tipo de gente que gostaria de ter filhos surfistas. Naquele tempo, acho que eles até pensavam que isto era hobby de pessoas que não gostam de estudar.

Sim, eu e meus pais crescemos. No entanto, apesar de não ter se concretizada a possibilidade de eu me tornar surfista, o medo de meus pais não foi aplacado. Todos sabem: jamais fiz escolhas fáceis. Apaixonei-me no Direito pelo seu ramo mais marginalizado: Direitos Humanos. Sim, também adoro Tributário. Mas acabei não insistindo na idéia de passar num concurso público. Para piorar, descobri que nasci para escrever literatura. E é dela que vivo, mesmo não sendo ela o meu recurso de subsistência.

Sabe, Papai Noel? Outro dia, vi na televisão uma entrevista com o John Casablancas. E, quando perguntaram para ele sobre o seu filho Julio (vocalista do Strokes), este acabou confessando: meu menino sempre foi muito excêntrico, fiquei surpreso com o seu sucesso. Confesso que achava que essa sua idéia de montar uma banda não ia resultar em nada. Até já estava separando uma parte maior do meu dinheiro para deixar de herança para ele! Na mesma hora que escutei isso, constatei: é isso que minha família pensa sobre mim. Seria muito legal se as coisas que eu faço também dessem super certo.

Pois bem: escrevo para você com o intuito de pedir desculpas. E também para pedir de Natal que tudo que venho fazendo dê bons resultados. Sim, porque tenho tanta certeza do que quero que nem consigo cogitar em desistir. Acho que minha vida perderia o sentido, sou muito identificada com meus objetivos.

Também queria pedir muita paz, saúde e alegria para todos que me rodeiam. E, principalmente, para os leitores do Vestígios. Sim, porque é o mínimo que eles merecem depois de ler uma carta tão longa.

Paro por aqui. Sua lista é grande, não quero mais incomodar. Mas espero mesmo que todos os meus pedidos sejam acatados. Caso contrário, no próximo ano, não haverá uma tentativa pública de conseguir suas desculpas. (rs)
Um beijo e um Natal cheio de trabalho,
Renata

8 comentários:

José Ricardo da Hora Vidal disse...

Gostei desta sua cartinha de Natal. É uma crônica finíssima. Publicou em algum jornal???

Renata Belmonte disse...

Não, acabei de escrever! Foi feita para o Vestígios mesmo!
Abraços,
Renata

Lidi disse...

Renata, adorei a tua cartinha. Eu também amava a novela Top Model, só não pedi nenhuma prancha para Papai Noel. Não tive essa idéia! Quanto à dar certo as coisas que você faz, já está dando. Posso falar por mim: amo ler teus livros e tudo o que escreve aqui no Vestígios. Você é uma escritora muito talentosa, te admiro muito e sei que não sou a única. Na advocacia, tenho certeza de que você terá (se já não tem) o mesmo SUCESSO! E por mérito, com ou sem a intervenção de Papai Noel. Beijos e FELIZ NATAL!!

Renata Belmonte disse...

Obrigada, Lidi! Fico muito feliz em saber disso! Feliz Natal e um ótimo 2009!!!
Bjs,
Renata

Chorik disse...

Bela carta, contou uma história, mandou recado e falou de si com uma fluência digna da escritora que é. Mas também é advogada Renata? Preciso rever meus conceitos! rs
Que seus sonhos se realizem, bem se vê que é batalhadora, tem talento e isso é meio caminho andado.
E vê se esquece o tributário, pelamordedeus, que a gente envelhece demais com direito tributário. rs
Ah! Confusão desfeita. Não estava tão louco assim. rs
Bj

Bárbara disse...

Renata, o que você escreve é muito mágico!Adorei seu texto.Meu desejo, neste Natal, é que você continue a construir mundos com sua bela escrita. Um abraço!

Renata Belmonte disse...

Muito obrigada, Chorik! Desejo o mesmo para você e toda sua família.

Bárbara: é sempre uma alegria receber as palavras de vocês. Deixo aqui um beijo e um Feliz 2009!

M. disse...

Oi, recebi seu e-mail com os votos de boas festas. Obrigada, viu? Felicidades sempre. Bjs. M.