30 de set de 2007

Insights & Epifanias

debaixo de tudo vestidos de nada
restamos após a luta pele, suor, sangue
belo embaralho de peitos e pernas corpos sobre corpos
a matéria do desejo impressa na respiração
revoluteando sobre si mesma sobre um outro incomensurável
já teima em ocupar espaço demais esgotado do gosto alheio
e ainda assim ansiando insights & epifanias
não mais as mesmas sim outras que não cabem em si
de tanto movimento um sobre outro um e outro
sobressaltados os dois no mesmo delírio insatatâneo
desferindo golpes talhando um amor à flor
da
pele

Sandro Ornellas
(Trabalhos do corpo. São Paulo: Letra Capital, 2007)

Eu coloquei um fim no meu reinado. Compreendi que era uma borboleta presa numa teia de aranha. Não, não precisei de outra epifania para chegar a tal conclusão. Bastou uma música, uma dor, este poema. Tão estranho e maravilhoso quanto meu corpo. A primeira verdade, segundo Sandro e Clarice.

26 de set de 2007

:)


"E vem chegando a primavera

Nosso futuro recomeça:

Venha que o que vem é perfeição..."


(Perfeição, Legião Urbana)


Primeiro post da minha fase otimista:)

23 de set de 2007

A vida como ela é


Hoje, na previsão diária para o meu signo, consta a seguinte afirmação: Nem tudo serão flores, mas elas estarão no caminho. Não sei exatamente porque, mas acabei me lembrando da minha última quarta-feira. Enquanto levava minha avó ao médico, fui abordada na rua pelos mais diversos tipos de pessoas: uma criança esquálida, um homem com o braço dilacerado, um homem com o pé quebrado... Todos querendo dinheiro, implorando piedade, expondo com veemência sua condição. Em tese, eles desejavam negociar comigo o preço de sua dor, tentavam mercantilizar suas feridas. Era como se disessem: se você me der algum tostão, poderá voltar para sua casa em paz.
A partir de tal episódio, acabei constatando algo muito terrível: no nosso cotidiano, vivemos sempre tentando conseguir vantagens nos utilizando de nossas fraquezas, tentando plantar nos outros o abominável sentimento de culpa. São pais que reclamam da velhice para conseguir a atenção dos filhos... São mulheres que se "vestem" de coitadinhas para arrancar dinheiro do marido... Ou seja: o discurso de vítima voltou a fazer sucesso no nosso país.
Hoje, eu fiquei em casa, não estava com vontade de encarar qualquer cena desagradável na rua. Coisa de quem, apesar de tudo, se sente muito mal com a pobreza e morre de culpa. Mas sabe de uma coisa? Me arrependi. Deveria ter ido ver as pétalas que apareceriam no meu caminho. Sim, porque de espinhos, já bastam os que me machucaram na última quarta-feira.

Desenho: Cidade do Kaos de Hugo Canuto

19 de set de 2007

Devastação, ela disse.

"Certo dia, no hall de um prédio público, um homem veio até mim. Ele se apresentou e disse: Eu a conheço desde sempre. Todo mundo diz que a senhora era bonita quando jovem. Eu vim lhe dizer que, para mim, a senhora é mais bonita agora. Gosto menos de seu rosto de moça do que o de agora, devastado."
Início de O Amante de Marguerite Duras. Sem dúvidas, uma das minhas obras favoritas.

17 de set de 2007

Neste papel onde também me escondo...




Natan Barretto é ator e poeta. Amanhã, 18 de setembro, ele estará lançando na Saraiva do Shopping Salvador o seu segundo livro de poemas, Esconderijos em Papéis. Fiquei intrigada com a sua rica história de vida e lhe fiz algumas perguntas. Eis o resultado:



RB- Cecília Meireles, certa vez, disse: não tem mais lar o que mora em tudo. Depois de tanto tempo fora do país, o Brasil ainda é sua "casa"? Onde você, agora, é realmente estrangeiro?

NB- No poema “Navio de várias árvores”, eu toco nesse assunto, do ponto de vista lingüístico, naturalmente abrangendo questões relacionadas à pátria. O poema começa com os versos: “Já sei que jamais serei um perfeito poliglota./ Tampouco poderei tentar a viagem de volta.” No primeiro verso, torno pública a minha incapacidade de falar perfeitamente os quatro idiomas que não apenas estudei a fundo, mas também vivenciei nos últimos vinte anos. No segundo, revelo a impossibilidade do retorno imaculado à língua-mãe. Embora durante os anos dedicados ao estudo de inglês, francês, italiano e espanhol, eu tenha continuado a estudar português, através da leitura e da escrita, ter deixado o Brasil me distanciou da minha língua materna. Hoje falo e escrevo português com um cuidado e atenção semelhantes aos que dedico a idiomas estrangeiros, tentando desviar-me de suas tantas armadilhas. Ainda assim, de vez em quando, acabo cometendo erros elementares, como se eu fosse estrangeiro à minha língua-mãe. Nesse mesmo poema, digo: “Minha língua-mãe me lambe,/ mas já não me lava/ da lava de palavras que me levam...”

Não sei se concordo totalmente com Cecília Meireles, pois acho que todo mundo tem um lar sim, ainda que imaginário. Foram muitas as casas onde morei, desde que deixei a casa onde vivi até os 19 anos. Morei numa pensão no Rio, num quartinho em Paris, num albergue em Roma, no sótão de um casarão em Londres, isso só para citar alguns dos tantos lugares por onde passei. No entanto, sempre soube que estava de passagem. A velha casa de Periperi, construída há mais de 70 anos por meu avô, a casa de sete mangueiras plantadas por ele e muitas outras árvores plantadas por meu pai, além de um lindo pé de flamboyant plantado por mim. Essa casa nunca deixou de ser, em mim, minha casa, ainda que nos últimos vinte anos eu só tenha estado nela de férias. Num poema, cujo título é o endereço dessa casa, digo que “partir é penetrar mais fundo do que quem fica.” O grande escritor argentino, Jorge Luis Borges, embora morasse na Europa, nunca deixou de ver Buenos Aires como a sua verdadeira cidade. Para ele, a pátria era um lugar muito mais idealizado do que concreto, muito mais no passado do que no presente. São dele os versos: “Naquela Buenos Aires, que me deixou, eu seria um estranho./ Sei que os únicos paraísos não proibidos ao homem são os paraísos perdidos.” Nesse sentindo, acredito nunca ter deixado o Brasil. Ainda assim, não poderia negar que em alguns aspectos me sinto estrangeiro aqui. No fundo hoje me sinto e sou estrangeiro, além de ser cidadão, tanto aqui quanto na Europa, o que por um lado não deixa de ser uma perda. Mas olhando por um outro ângulo, acaba sendo um grande ganho.

RB- O que dói mais: ser ator ou poeta? (Faço tal pergunta porque apenas escrevo prosa. E sou uma atriz frustrada, jamais subi num palco, apesar de apaixonada pela atividade).

NB- Como fui muito prolixo na resposta acima, vou tentar ser mais sucinto aqui. Na minha experiência pessoal, ser ator é muito mais doloroso. Nina, uma atriz de pouco talento, personagem da peça A Gaivota, de Tchekhov, expressa essa dor em poucas palavras: “Você não pode compreender o que é isso, ter consciência de que atua mal.” Eu acho até que eu tinha talento e vocação. Mas fui tomado por um grande medo do palco. A insegurança que eu sentia em cena foi o que me levou a buscar o esconderijo do ato de escrever. Não nego a dor de estar muitas vezes diante da branca folha de papel, consciente de que escrevo mal, não conseguindo sair vitorioso da luta que diariamente realizo com as palavras. No entanto, o fato de eu não estar exposto enquanto luto me garante uma certa lucidez e calma, qualidades necessárias para a luta, que no dizer de Drummond, era a luta mais vã. Já o ator não. Para a luta do ator ocorrer, ele precisa estar diante do público.


RB- Em qual dos seus poemas você se esconde melhor?

NB- A idéia dos meus poemas como esconderijos está mais relacionada à minha ausência física neles do que ao ato de se esconder. Na verdade, cada vez mais acredito que não seja possível se esconder enquanto artista, nem mesmo enquanto pessoa. A individualidade inerente a todo ser humano impede que isso ocorra. Por sermos diferentes uns dos outros, acabamos sempre deixando a nossa marca individual em tudo o que fazemos. Nos meus esconderijos em papéis estou mais exposto do que escondido. E aceito isso. Porém estou ausente. Estar fisicamente ausente é fundamental. Escondido mesmo eu não estou nem mesmo nos poemas em que não estou, pois até a minha percepção individual do mundo me revela ao mundo.


RB- Quando você se compreendeu artista? Foi difícil a aceitação de tal condição?

NB- Eu me compreendi artista muito cedo. Quando criança, eu pensava em ser médico ou pintor. Eu tinha um cavalete e fazia muitos quadros que minha mãe pendurava na sala e no corredor de nossa casa. Eu gostava muito de fazer peças com fantoches. Na verdade eu adorava isso! Minha mãe nos levava muito ao Teatro Castro Alves. Foi lá que eu vi Monetinho e me encantei. Anos mais tarde veria Os Saltimbancos e passaria a não ter dúvidas do que eu queria fazer pelo resto de minha vida. Mas só comecei a subir no palco quando tinha uns 14 anos. Foi no Marista, colégio onde eu estudava. Eu representei Zé do Burro, em O Pagador de Promessas, de Dias Gomes, na sala de aula. O texto era longo, mas eu não errei nada. Ao me assistir, Luciano Bahia, que era meu colega de turma, me chamou para ser o ator principal da peça do ginásio, no ano seguinte. Nós competiríamos com o 1º, 2º e 3º colegial. A partir dali, eu ganharia todos os prêmios de melhor ator, até deixar o Marista em 1986. Minha família sempre ajudava, procurando roupas, sapatos e perucas para os meus muitos personagens. Todos me incentivavam. Nunca me impuseram nenhum empecilho. Mas o medo do palco sempre esteve presente, desde o princípio. No entanto, esse medo se diluía quando eu estava no palco. Era maravilhoso! Se eu pudesse redescobrir aquela energia em mim, retornaria ao palco hoje mesmo. E já não descarto essa possibilidade. Ando namorando o palco novamente. Em Londres, faço parte da StoneCrabs, uma companhia teatral anglo-brasileira. Embora a minha função esteja apenas relacionada a assuntos administrativos, já não acho impossível algum passeio futuro por minha primeira profissão. Seria tão bom poder explorar aqueles esconderijos novamente!
Mais sobre Natan:

15 de set de 2007

Cantem comigo:

Quero me encontrar, mas não sei onde estou
Vem comigo procurar algum lugar mais calmo
Longe dessa confusão e dessa gente que não se respeita
Tenho quase certeza que eu não sou daqui
Acho que gosto de São Paulo
Gosto de São João
Gosto de São Francisco e São Sebastião
E eu gosto de meninos e meninas
Vai ver que é assim mesmo e vai ser assim pra sempre
Vai ficando complicado e ao mesmo tempo diferente
Estou cansado de bater e ninguém abrir
Você me deixou sentindo tanto frio
Não sei mais o que dizer
Te fiz comida, velei teu sono
Fui teu amigo, te levei comigo
E me diz: pra mim o que é que ficou?
Me deixa ver como viver é bom
Não é a vida como está, e sim as coisas como são
Você não quis tentar me ajudar
Então, a culpa é de quem? A culpa é de quem?
Eu canto em português errado
Acho que o imperfeito não participa do passado
Troco as pessoas
Troco os pronomes
Preciso de oxigênio, preciso ter amigos
Preciso ter dinheiro, preciso de carinho
Acho que te amava, agora acho que te odeio
São tudo pequenas coisas e tudo deve passar
Acho que gosto de São Paulo
E gosto de São João
Gosto de São Francisco e de São Sebastião
E eu gosto de meninos e meninas

Pronto. Já me sinto mais aliviada.
Tenho quase certeza que eu não sou daqui...

14 de set de 2007

Brief an den Vater


“Os pais que esperam gratidão de seus filhos (inclusive os há que a exigem) são como agiotas; eles até gostam de arriscar seu capital, contanto que recebam juros por ele”.


(KAFKA, Franz: Tagebücher 1910-1923. Org. por Max Brod. New York e Frankfurt a. M. 1951, p. 443)


Se Kafka tivesse acreditado piamente nas palavras de seu pai, não saberíamos de sua existência. Sempre que temos um projeto que foge do senso comum, surge alguém para dizer que não vai dar certo. Alguns usam a desculpa de que estão sendo "ponderados". Outros agem por inveja, pois têm medo que outras pessoas acabem realizando os sonhos que eles não tiveram coragem de assumir. Eu já perdi a fé na política, nas boas intenções de algumas pessoas, até mesmo nos caminhos do mundo. Mas em mim? Jamais.

12 de set de 2007

Em veludo azul




Quando eu tinha nove anos, ganhei o papel principal da peça de teatro da escola. Lembro-me com perfeição da alegria que senti, desde aquela época já sabia que queria ser artista. Cheguei em casa pulando, contando entre sorrisos a boa notícia para meus pais. Mas a reação deles foi completamente diferente da que eu esperava: Não, isso não é coisa para você. Você tem é que estudar para ser alguém na vida. Não, sinto muito, você não vai participar.
Faz menos de uma semana que voltei da viagem. Durante todos os dias que estive fora, tentei fazer apenas coisas prazerosas. Visitei museus, fui ao cinema, comprei algumas coisas bonitas. Mas algo faltava dentro de mim, algo que eu não sabia exatamente como verbalizar. Seus sonhos são impossíveis, me dizia uma voz bastante conhecida. Contente-se com o que você tem, sinta-se culpada por desejar mais.
Sempre que estou sozinha, interpreto personagens dos meus filmes favoritos. Normalmente fantasio que trabalho com o David Lynch. Sonho, um dia, encontrá-lo para poder lhe contar essa história. Escuto as trilhas do Angelo Badalementi, crio falas conturbadas. Desde a infância não piso num palco, portanto é no meu quarto que guardo este segredo, que faço todo o meu teatro.
O sol brilhava. Era o meu último dia naquele lugar. Eu me despedia feliz daquelas pessoas que mal conheci, contemplava com carinho os detalhes das ruas e de suas casas. Na porta da livraria, percebo uma mesa cheia de livros, todos em promoção. Não, nada me interessa. Dou as costas e sigo em frente. Eis que se apresenta uma outra mesa com um único livro exposto. Não, não devo gostar. Mas não custa olhar. Por um minuto, chego a duvidar do que está escrito: David Lynch, Catching the big fish. Sim, eu acabava de pegar o grande peixe.
Se Deus ainda existe, não sei. Mas tenho certeza de que, naquele momento, ele estava comigo. Pois ouvi ele dizer, bem baixinho: aproveite o seu encontro com o Sr. Lynch.
Repito: era o meu último dia naquele lugar. Saí pulando da livraria, alisando a capa do meu livro. Ela é bem lisa, gostosa de tocar. Como um veludo. Um veludo azul. Que foi me dado de presente por Deus na cidade dos sonhos.


9 de set de 2007

No "Entre Aspas"...

Algumas palavras minhas!
http://revistaentreaspas.blogspot.com/
Beijos,
Renata

6 de set de 2007

Quem disse que eu me mudei?


Não importa que a tenham demolido:
A gente continua morando na velha casa
[em que nasceu.

Mário Quintana



Volto de viagem direto para o Vestígios. Esta casa, nossa casa, minha casa.
(Post em homenagem a Fernanda Garibaldi, leitora querida, que trouxe poesia para essa minha volta)