23 de set de 2007

A vida como ela é


Hoje, na previsão diária para o meu signo, consta a seguinte afirmação: Nem tudo serão flores, mas elas estarão no caminho. Não sei exatamente porque, mas acabei me lembrando da minha última quarta-feira. Enquanto levava minha avó ao médico, fui abordada na rua pelos mais diversos tipos de pessoas: uma criança esquálida, um homem com o braço dilacerado, um homem com o pé quebrado... Todos querendo dinheiro, implorando piedade, expondo com veemência sua condição. Em tese, eles desejavam negociar comigo o preço de sua dor, tentavam mercantilizar suas feridas. Era como se disessem: se você me der algum tostão, poderá voltar para sua casa em paz.
A partir de tal episódio, acabei constatando algo muito terrível: no nosso cotidiano, vivemos sempre tentando conseguir vantagens nos utilizando de nossas fraquezas, tentando plantar nos outros o abominável sentimento de culpa. São pais que reclamam da velhice para conseguir a atenção dos filhos... São mulheres que se "vestem" de coitadinhas para arrancar dinheiro do marido... Ou seja: o discurso de vítima voltou a fazer sucesso no nosso país.
Hoje, eu fiquei em casa, não estava com vontade de encarar qualquer cena desagradável na rua. Coisa de quem, apesar de tudo, se sente muito mal com a pobreza e morre de culpa. Mas sabe de uma coisa? Me arrependi. Deveria ter ido ver as pétalas que apareceriam no meu caminho. Sim, porque de espinhos, já bastam os que me machucaram na última quarta-feira.

Desenho: Cidade do Kaos de Hugo Canuto

11 comentários:

Personagem Principal disse...

Por isso que eu acho que o altruísmo não existe. O que existe são pessoas desesperadas em aliviar a culpa que sentem.

Amei esse texto. Bjs.

aeronauta disse...

Também amei esse texto. Faço refrão.

Luíza disse...

o que impressiona eh que para algumas pessoas, fazer-se de vitima eh a unica coisa que as resta.. e ai? de quem eh a culpa? serah delas mesmas?
pra pensar esse teu post... adorei.
Beijos

SANDRO ORNELLAS disse...

É, B., jogar-se no mundo para colher sangue e perfumes nos espinhos e flores. Até para se saber vivo. Senão apodrecemos. É claro que às vezes precisamos nos recolher quando o corpo pede a proteção de suas drogas cotidianas. Mas, depois, lá vamos nós de volta à vida que dói.

Kátia Borges disse...

Cabeça erguida, moça, para olhar as estrelas. Bjs

anjobaldio disse...

Acabei de ler teu livro. Gostei muito de "cartas para ninguém", e a gente sabe que todo beijo de chuva é mesmo efêmero. Sinto um certo desespero ao ouvir "ne me quitte pas", como uma estranha melancolia, às vezes doce, ou insustentável, enquanto a mulher chora sangue entre 4 paredes, vestida da cor da noite e toda perfumada para ser lambida. Parabéns pela tua poesia. Um forte abraço.

ediney disse...

Esse texto me fez lembrar quando eu, como quase todo interiorano pobre e sem sobre nome importante, fui tentar a sorte em Salvador.
Sempre gostei muito de Salvador, mas só apareceia por lá a passeio. Mas na perspectiva da morada, de viver lá foi terrível.
Depois de espalhar meu currículo por toda cidade e é claro não ter resposta alguma. Ficava dias e horas sentado na Piedade em silêncio, não havia com quem conversa, não havia amigos, lugares... NADA.
Só os que fazem das suas desgraças uma maneira de ganhar a vida.Estavam por lá, com suas existências veladas. Mendigos, pivetes, mutilados, prostitutas e uma tristeza que me catapultou de volta para o meu quase lugar no mundo.

P-s acabou a greve dos correios
edineysantana@bol.com.br

Renata Belmonte disse...

Os comentários desse post foram muito interessantes! Tenho orgulho de ter bons leitores!
Beijos,
Renata

Vladimir Queiroz disse...

"A vida é boa e você pode fazê-la
sempre melhor" disse-me a grande poetisa Cora Coralina. sábia senhora aos 93 anos. O que seria da vida sem as pedras do caminho para serem puladas, desviadas, ultrapassadas.
Vladimir Queiroz

O Sibarita disse...

Olá dona moça e ai? kkkk Seu texto é perfeito, faça fé!

Agora, olhando do lado espíritual da coisa, reencarnamos para isso, para o aprendizado e se não houver esses mercantilizadores de feridas como você mesma chama não poderemos progredir espiritualmente e eles (os mercantilizadores) reencarnaram nessa condição pela lei do livre arbítrio) para ultrapassar essa barreira que é o seu aprendizado, se permanecem assim, não cumprem sua tarefa, bem como nós que os encontramos, nos batemos sempre com eles se não temos a bondade, a compreenção no coração também deixamos de cumprir da mesma forma a nossa tarefa.

É como o Vladimir pergunta acima:"O que seria da vida sem eles?"

bjs
O Sibarita

Renata Belmonte disse...

Vladimir,

Seja bem-vindo!
Abraços,
Renata