11 de jun de 2009

O tempo das coisas


Quando pequena, ele a colocava no carro e faziam longos passeios juntos. No caminho, ele dizia que tinha o sonho de ter uma filha advogada, mas sempre lhe ensinava noções de construção civil. Até hoje, ela sabe qual é a diferença existente entre uma viga e um pilar. Ela permanecia em silêncio, gostava de escutar aquele homem falar sobre o mundo, sentia menos medo de sua condição humana, ele a protegeria de qualquer situação. Quase sempre, o destino final era o mesmo: uma praça cheia de pombos. Foi assim, durante muitos anos.

Certo dia, pouco antes de sua mudança, ela pegou uma carona com ele. Nos primeiros minutos, nada disseram. Passado o incômodo inicial, ele comentou que ela deveria pensar sobre suas escolhas, ressaltou que ela tinha que passar na seleção do Mestrado, isto era fundamental para a sua carreira jurídica. Durante todo o tempo, ela ficou em silêncio. Não queria demonstrar seu enorme medo das coisas deste mundo, tinha receio que ele percebesse que ela ainda precisava de sua proteção. Diante da evidente impossibilidade de um diálogo, ele se calou. E passou a dirigir com mais atenção.

Sim, houve um momento em que os dois foram obrigados a pensar sobre a passagem do tempo. No meio do trajeto, estava aquela praça tão conhecida. Nada foi comentado, só que ambos notaram: não havia mais pombos lá.

12 comentários:

Bárbara disse...

Não há mais pombos,passou-se o tempo ... ainda assim, há um pilar.
Adorei o texto, Renata!
Bjs!

maria guimarães sampaio disse...

lembrar, sempre. E com textos assim as lembranças são mais bonitas.

Viviane Costa disse...

É, acho que de colo e proteção a gente vai precisar sempre. Mesmo que a espontaneidade de pedir por eles suma com os pombos...
Lindo texto! E fique bem, viu? Vou instalar o Skype agora...
Beijocas.

Lidi disse...

Renata, achei este post um diálogo com o do Embrulho no Estômago que comentei ontem. O tempo passa e sofremos tantas mudanças, temos que tomar tantas decisões (às vezes, tiros no escuro), mas muita coisa ainda permanece. Um beijo.

Janaina Amado disse...

Renata, este texto dialoga também com o meu "Colo" de ontem, não é? Não sei se vc. gosta de conversar sobre textos, mas deixei lá uma resposta ao seu comentário, nesse sentid. Não o trouxe para cá porque não faria sentido. Falando em texto: a repetição dos "que" no seu foi intencional, como imagino? Por quê? Beijo!
PS - Mande por favor seu e-mail para janamado@gmail.com, quero lhe enviar meu endereço. Adoro presentes!

Renata Belmonte disse...

Jana,
Este texto foi escrito num só ato, logo depois da leitura do seu "Colo" e de "Fases" do Embrulho no Estômago. Ambos os posts me emocionaram, me lembrei deste episódio da miha vida e fui tomada pelo impulso da criação. Os meus "que" não foram intencionais, reli o texto e achei um exagero, até o modifiquei um pouco. Vou escrever um e-mail para você agora!
bjs

Non je ne regrette rien: Ediney Santana disse...

quanta solidão nesta imagem,quanta tristeza na vida da personagem do texto...

aeronauta disse...

Belo como o crepúsculo ou o alvorecer.

Maria Muadiê disse...

Renata, me deu uma dorzinha...me fez lembrar de meu pai.
O único consolo é saber que os pombos estão em nós.
beijo

Chorik disse...

Sabe a primeira coisa que fiz depois que li esse seu texto Renata? Abracei meu filho e minhas filhas, um a um. Obrigado.

Renata Belmonte disse...

Que fofo, Chorik! Adorei!

Bernardo Guimarães disse...

ah, renata...