24 de mai de 2009

Aqui


Eu sempre quis ir embora daqui. Sempre, sempre. Quando pequena, imaginava com ansiedade o dia da minha partida e sentia enorme angústia com a mínima possibilidade de isso não acontecer. A vida começaria a partir deste dia: antes tudo era ensaio, nada valia. Mas qual seria este lugar extraordinário, maravilhoso que me tornaria inteira e não apenas parte dele? E se ele não existisse? E se ele não passasse de uma ilusão? Apenas uma certeza: pertencer não era preciso, bastava-me a idéia de possuir algum mobilidade e o distanciamento necessário para a compreensão de que, em qualquer lugar que fosse, tudo era eu. A idéia de raízes sempre me pareceu aprisionadora, terrível. Como explicar que era exilada na minha própria terra e que ela não é o meu lugar? Como lidar com a dor e a culpa de saber que nem sempre somos da mesma pátria daqueles que amamos e que percorreremos ruas distintas para os restos de nossas vidas? Como assumir isso sem parecer ingrata, sem desmerecer tudo aquilo de precioso que sempre lhe foi ofertado pelos outros? E como se olhar no espelho tendo a certeza de que não acompanhará o envelhecer daqueles que ama e que, num dia qualquer, se dará conta de que o tempo passou e que você não esteve presente no decorrer dele? Em prol disso, deveria carregar para sempre aquela agonia? Recentemente, alguém disse: você não precisa mais da Senhorita B. Já não há mais fuga, tudo é seu lugar. Recentemente, alguém repetiu: dor para mim era ver seus olhos deixarem de brilhar. Prefiro-os lindos numa fotografia do que opacos no dia a dia.

Eu sempre quis ir embora daqui. Sempre, sempre. Foi o que fiz. E isso me salvou da sina dos escritores perdidos, do eventual encanto pela palavra suicídio. Minha casa? Os livros. De mim? Não mais indícios ou vestígios. Plena, inteira, longe, distante. Só assim posso com tanto prazer e alegria para aqui estar e retornar.

17 comentários:

Lidi disse...

Nossa, Renata, como me identifiquei com este texto! Só que eu ainda carrego uma agonia. Sinto-me sempre deslocada. Não sei onde é o meu lugar, mas sei, também, que não é aqui.

Lora disse...

Renata,
Lindo seu post de ontem pra Pig. Vim aqui depois de muito tempo e acabei me surpreendo também com o post de hoje. Me identifiquei com o que vc escreveu como com poucas coisas que li na vida. Acho que posso dizer que compartilho da sua vontade de ir embora e da sua angústia de deixar o que ama para trás. Gostei de te ver ontem. Te admiro muito, apesar da nossa pouca convevivência e fico feliz de ver vc se encontrar, na literatura e na vida.
Bjos
Lora

Renata Belmonte disse...

Lora:
A admiração é recíproca. Estou na torcida pelo MPF! Tb adorei te ver!

Lidi: só essa sua certeza já é um grande passo.

Bjs!

Bárbara disse...

Lindo texto Renata. Sincero e tocante!
Como disse Lora, também sinto uma angústia quando penso em deixar o que amo para trás.

Beijos!

Nilson disse...

Vou repetir os outros comentários, mas que seja: me identifiquei muito. Essa sua escrita, a um só tempo delicada, confessional, precisa, tem um efeito confortante para leitores que também se deparam com abismos. E aliás, se todos vão se deparar, mais dia, menos dia, então vale mesmo pra todo mundo. Parabéns, Renata! Bjs.

Maria Muadiê disse...

Admiro a sua sinceridade, e o seu texto fruto também dessa sinceridade.
beijo

Viviane Costa disse...

Acho que o mais importante é isso mesmo, realizar aquilo que a gente sempre quis, ainda que isso signifique não agradar a todo mundo - o que não aconteceria de todo modo. Fico feliz por vc. :)

Janaina Amado disse...

Gosto do texto, acho que os que escrevem se identificam. Ótimo encontro na ALB (vai lotar)!

Edu O. disse...

Assim como as outras pessoas, eu me identifiquei tanto. Saí do meu interior, que é o meu verdadeiro lugar, e depois disso não me localizo mais em nenhum. até mesmo lá, quando volto, já não é o que deixei e também não sou mais quem fui. Natural!

Pena não poder te encontrar dia 27. beijo

Bernardo Guimarães disse...

este texto é renata belmonte no melhor de seus escritos. belo texto. belíssimo texto.

Victor Mascarenhas disse...

Quando a sensação de não-pertencimento deixa de ser só um incômodo na vida das pessoas e passa a ser uma força propulsora para um trabalho criativo, a gente acaba se encontrando e se encaixando de alguma forma. Que bom que a literatura está aí para nos ajudar nisso.
Ainda não li os livros, mas em breve farei isso e comentarei. Boa sorte no evento na Academia.

Mirdad disse...

Renata e caros frequentadores deste ilustre blog:

Se der, não deixem de ouvir a entrevista de extrema clareza de José Inácio Vieira de Melo no programa Podcast K7, do blog El Mirdad - Farpas e Psicodelia.

Vocês podem tanto ouvir quanto baixar à vontade. Basta clicar nos links.

Abs a todos e longa vida à obra do cavaleiro de fogo!!!

Link blog: www.elmirdad.blogspot.com

Link direto da entrevista: http://elmirdad.blogspot.com/2009/05/podcast-k7-05-jivm.html

julia.ga disse...

Lindoooo o texto! Lindo lindo. Sensível... coisa que não sou. Mas me tocou. De verdade!

Beijo

Renata Belmonte disse...

Obrigada a todos!
Bjs

tocadaliberdade disse...

Sou, assim como você, esse texto.

Cledson Santos disse...

Ainda estou tentando me adaptar e conseguir acompanhar sua produção, que vou percebendo ter uma dimensão magnífica....

Como não "achei" este blog antes?!

E grato pelos elogios às fotos... Mas são os seus textos as obras primas!

Ricardo disse...

este post é realmente intrigante.

mais do que lindo, sensível, é intrigante.

lidar com a sensação do não-lugar é realmente difícil, porém interessante.
para alguns, necessária.

as vezes um brilho vem da opacidade...

bjos