18 de mai de 2009

Sobre ser rainha


Recentemente, li que Michelle Obama convocou todos os funcionários da Casa Branca para uma reunião e lhes deu algumas orientações sobre como eles deveriam se comportar diante de suas duas filhas. Michelle deixou claro que as meninas devem, diariamente, fazer suas camas e arrumar seus quartos sem qualquer ajuda alheia. Ainda pontuou que os funcionários devem avisá-la de qualquer comportamento rude ou grosseiro que, por acaso, as meninas tenham com eles.

Essa postura de Michelle Obama me lembrou muito da minha educação. Fui criada por três pessoas(meu pai, minha mãe e minha babá) e, desde muito cedo, aprendi que devo me responsabilizar por minhas atitudes e escolhas. Lembro-me bem que, na minha adolescência, meu comportamento contrastava de forma absurda com os dos meus colegas de escola. Filhos da chamada "elite" baiana, eles não tinham qualquer cuidado com o outro: os professores eram "empregados", as meninas tinham seu valor relacionado ao preço de suas roupas e aos seus graus de beleza, cultura e literatura eram coisa para aqueles que não "pertenciam". Hoje, até parece engraçado, mas, naquela escola, não era considerada "alguém" a garota que não desfilasse pelos corredores com a calça jeans cuja a marca era um raio.

Jamais fui uma "excluída" ou coisa do tipo, mas sempre me senti muito enojada com tudo isso. E, recentemente, tive o azar(sorte?) de viajar ao lado de um fiel representante dessa "filosofia" que tanto fez parte dos meus tempos adolescentes. Durante duas horas, fui obrigada a escutar este rapaz e seus amigos tecerem comentários terríveis sobre várias mulheres que conheço. Ainda presenciei suas "teses" sobre as melhores baladas e bebidas(todas muito caras para não deixar "gente bizarra" entrar.).

Para me divertir, durante a viagem, peguei minha caderneta e anotei todas as bobagens que os rapazes proferiram. Pensei que daria um bom texto para o Vestígios ou uma conversa engraçada com minha melhor amiga. Fui colega desses senhores durante muitos anos, mas, em momento algum, eles (que se sentaram ao meu lado) foram gentis comigo ou mesmo me cumprimentaram. Melhor assim, posso escrever esse texto sem qualquer resquício de culpa. Quando a viagem acabou, deixei o avião pensando em como também estava certa Eleanor Roosevelt, outra ilustre primeira-dama: não, ninguém pode fazer você se sentir inferior sem o seu consentimento.

16 comentários:

Mirdad disse...

Que venha então este texto!

maria guimarães sampaio disse...

Renata, você escreve! Formidável mesmo. Porque fico inibida para escrever , essamenina: você escreve prá caralho!
Maria (ê boquinha limpa)

Andréia M. G. disse...

Aplausos! Muitos aplausos para vc!

Bárbara Jolie disse...

Senhorita B.
Fico encantada com a sua segurança ao escrever. Seu post me lembrou o dia da criação de Vinícius de Moraes, "Impossível fugir a essa dura realidade/Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios [...] Porque hoje é sábado.", escrito na década de 60, será mesmo?

Renata Belmonte disse...

Super obrigada!
:)

imonizpacheco disse...

Não sei a sua idade porém acho que a educação doméstica, com a desculpa da falta de tempo dos pais, anda muito pior.
As crianças não tem noção de limite (palavra quase politicamente incorreta) e não têm nenhuma responsabilidade, nem mesmo a de estudar e ter boas notas. Respeitar os mais velhos, nem pensar, cumprimentar as visitas, que pretensão...
Poderia listar aqui uma enormidade de coisas mas não quero me alongar.
Somente dizer que concordo com voce e falar que sou fã dos seus textos.

Bernardo Guimarães disse...

renatinha em um de seus graaandes momentos. adorei tudo. mostra pra gente o que escreveu sobre os meninos!

Viviane Costa disse...

Nunca concordei tanto com vc como agora. Excelente texto, Rênate! Excelente!
Bjs.

Chorik disse...

Você pode ter tido uma boa educação, pode ter recebido valores éticos e morais de seus pais. Mas o convívio com a riqueza, a influência daqueles que não souberam lidar com essa prova a que você foi submetida, poderiam, mesmo assim, tê-la tornado igualmente nojenta. Não foi isso que ocorreu porque acima de tudo você não se identifica com a falsa realeza. Não é somente uma questão de educação, mas de caráter. Parabéns Renata.

Luli Facciolla disse...

Renatinha!
Cadastrei o Vestígios aqui ó: www.skoob.com.br
É um dos que "Estou lendo" da minha estante.
Se vc ainda não faz parte, vale muito a pena... Dá pra "trocar figurinhas" por lá também!

Lindo post!

Beijos e beijos

Ricardo disse...

toda essa diversidade é divertida e necessária.
enquanto para nós esses comentários todos são uns absurdos vindos de pessoas inconsequentes, para eles somos uns chatos que só querem ler e escrever e nada mais.
não defendo o ponto de vista deles - quanto a isso discordo em tudo e é realmente uma pena que existam pessoas com esses tipos de valores. mas o enfrentamento de pontos de vistas diferentes, de valores diferentes, é saudável (desde que com respeito), proporciona crescimento... oportunidades de escreever um texto... :)

enfim, mto bom!
bjos

Lidi disse...

Renata, muito bom o post e concordo com o Chorik, você além de uma boa educação, tem um bom caráter. Obrigada pelo comentário em meu blog. Fiquei curiosa pelo teu conto.

Cledson Santos disse...

Feliz foi o momento no qual resolvi ver os comentários de um texto da minha amiga Bárbara Jolie.... Você conseguiu me transportar para a cadeira ao lado e fazer com que observasse toda a situação transcorrendo. Perfeito texto!!!

Parabéns, e vou começar a seguir seu blog, pois achei muito interessante mesmo. Parabéns!!!

Nilson disse...

Concordo com Maria: você escreve pra caralho!!! Também convivi com gente assim, e diria que uma das vantagens do mundo adulto foi ter ido para o mais longe possível dessa esfera. Procuro criar o meu filho com respeito pelas pessoas. Acho que é o mínimo que um pai pode fazer. Legal ter lido esse seu texto!!!

aeronauta disse...

Renata,
o que faz de você uma rainha, entre outras coisas, é sua grande generosidade.

Edu O. disse...

esse foi para eu ganhar o dia!!! obrigado