28 de out de 2008

J, filho de M


Vocês se lembram daquela frase que aprendemos aos doze anos e que ficávamos repetindo no playground sem parar? Aquela que proclama: "o que vem de baixo não me atinge". Pois então: eu a internalizei com perfeição. Talvez pelos dez anos de análise. Talvez porque, na infância, como vocês perceberão, eu acreditava piamente em tudo que me era dito.

Recentemente, minha querida amiga Aeronauta, me pediu que eu escrevesse sobre quando eu era criança. Pois bem, acabei me lembrando que eu era uma menina muito medrosa. E me recordei de dois episódios que foram verdadeiras exceções ao "o que vem de baixo não me atinge."

O primeiro deles se deu num conhecido restaurante de Salvador. Eu, aos quatro anos, tinha verdadeiro pavor da criatura que abria a porta dele. Isso mesmo: o monstro da minha infância era o anão do Baby Beef.

Ele era(é?) um homenzinho muito, muito pequenininho. E, bem mais terrível do que ter que ver aquele anão todo domingo, era a pressão que os adultos faziam para que eu fosse brincar com ele. Sempre petrificada de horror, sentava na cadeira de couro e observava as outras crianças correndo felizes, pertubando a vida daquele pobre ser. E, certo dia, uma delas, descobrindo meu desespero, afirmou: o anão lhe lançou uma maldição. Você ficará como ele, jamais crescerá.

Pronto. Isso foi o bastante para que eu começasse a chorar compulsivamente. Era louca para ser adulta e, agora, descobria que aquela criatura miserável iria impedir isso de acontecer! Foram longas as noites de medo e muitos pedidos para Deus. Até hoje, evito almoçar naquele lugar.

Mas é o segundo episódio que mais quero contar. Aos seis anos, gostava muito de ficar na casa da minha avó. E, certo dia, entro na sala de jantar e vejo minha mãe, minha avó e minhas três tias, arrasadas, repetindo sem parar: Ohhhh, J, filho de M? Drogado? Que coisa terrível!

O clima era realmente bastante fúnebre. Uma das minhas tias tinha lágrimas ns olhos. Compreendi que ser drogado era algo muito ruim, quase como ser um vampiro. Mas não sabia exatamente o que tal palavra significava. Lembro-me ainda com perfeição de minha mãe falando: Mas que desgraça se abateu sobre essa família! Renata, minha filha, não aceite nada que J. queira lhe dar.

J, filho de M, era um bonito adolescente que morava no prédio de minha avó. Com alguma frequência, brincava comigo, adorava crianças. Recordo-me do calafrio que senti ao pensar nisso. Que perigo! Nunca, nunca mais deixaria J se aproximar.

Pois então. Alguns meses se passaram. E, numa tarde, desci para o play do prédio de minha avó para esperar meu pai me buscar. Minha avó desceria em alguns instantes, iria para um chá de cozinha, estava toda arrumada, vestia meia-calça e usava um sapato alto para mascarar sua baixa estatura.

Eu aguardava, alegremente, a chegada de meu pai. Brincava com minha boneca favorita. Mas eis que, de repente, escuto uma voz chamar meu nome. Olho para trás. Congelo. J, filho de M, está vindo na minha direção.

Horrorizada, tenho pouco tempo para pensar. Vejo minha avó saindo do elevador. Não tenho outra alternativa. Corro em alta velocidade, pulo em cima dela. Segundos depois, caímos juntas no chão.

Minha avó, com a meia calça rasgada, muito irritada. J., ajudando-a a se levantar, rindo sem entender nada. Minha avó desistindo de ir ao chá de cozinha. Meu pai, aborrecido: essa menina está mesmo muito mal-educada! Eu, de castigo, sem compreender o motivo disso. Minha avó, agradecendo: obrigada, J. Você é um bom menino.

O que vem de baixo não me atinge? Sei mais não. Escrevendo esse texto, voltei a ficar com raiva de J., do anão, mas, principalmente, de minha avó e meus pais.

13 comentários:

Mayrant Gallo disse...

Oi, Renata, gostei muito. Há, inclusive, o germe de um conto aqui. É só mudar os nomes, o lugar, as circunstâncias e, pronto!Boa e verdadeira literatura. Abraço, Mayrant.

aeronauta disse...

Obrigada, Renata, por me atender ao pedido e contar esse bela história de sua infância. Parabéns!

Bernardo Guimarães disse...

Renata:
gosto tanto do que vc escreve. Esta histéria é tocante. As pessoas não imaginam o que acontece no coração e mente de uma criança. Quatro e seis anos; fiquei aqui pensando nos meus quatro e seis...não sei se tenho a sua coragem de contar o que se passava.

franklin albuquerque disse...

NOSSA RENATA COMO VOCE É AGRESSIVA !!!!!ESSE COMENTARIO COM CERTEZA NÃO VAI TE ATINGIR...

Renata Belmonte disse...

Não mesmo, querido!(rs)
Bjs

Personagem Principal disse...

É uma verdadeira loucura o modo como as informações se processam na nossa mente, qdo somos crianças. Adorei o texto. Bjs. :)

Luli Facciolla disse...

Renataaaaa! Nem te conto!
Meu irmão media a estatura dele no anão do restaurante! Toda vez que íamos lá ele constatava o quanto estava mais alto! ahahaha
Media os pés também! Que figura!
Esse anão é histórico! ahahaha

Amei!

Beijos

maria guimarães sampaio disse...

geeentes! quando o anão do baby começou a trabalhar eu já era adulta. Adoro ver a meninada como você, Renata, escrevendo lindamente. Diferentemente da primeira opinião lá em cima, vejo o conto pronto sem tirar nem por. Beijo de Maria

Lidi disse...

Renata, lembrei da minha infância. Um dia minha mãe me disse: - Não aceite nenhum doce, nada, de estranhos. Pois bem, estava na varanda de minha casa quando um senhor chegou no portão, pediu um pouco de comida e mostrou-me uma vasilha (certamente para colocar a comida). Não o escutei direito, pois já estava em pânico. E o que imaginei? Que naquela vasilha tinha algum doce e ele estava me oferecendo. O que fiz? Saí correndo, desesperada, gritando: - Não quero, não quero doce não!! Mas, depois minha mãe me acalmou e ficou tudo bem. (risos) Abraço.

M. disse...

Adoro memórias da infância, sobretudo se elas forem muito bem contadas, como aqui. Beijos

Pedro disse...

rsrsrs
Mto bom, Bel. Confesso que eu também morria de medo do anão e meus pais insistiam para eu apertar a mão dele. Muitos almoços de domingo foram um tormento pra mim. Outro pesadelo de infância também estava no Baby Beef: aquela bala soft redonda que, segundo os adultos, ao ser engolida, tampava a garganta e a pessoa morria. Eu chupava aquele doce colorido numa tensão absurda.
Bjo!

Jana disse...

Muito bom, muito bom.
É o que eu sempre digo: as crianças não são complicadas, mas os adultos... Francamente!

Beijoca lindeza, levo teu linque comigo.
:)

Juan Trasmonte disse...

Indicação do Bernardo, só podia trazer coisa bacana.
Passei a te seguir.
Tudo o que eu quero na vida é achar blogs bem escritos.
Parabens pelo livro!
Abs.