19 de fev de 2009

Restos de Carnaval



"Mas houve um carnaval diferente dos outros. Tão milagroso que eu não conseguia acreditar que tanto me fosse dado, eu, que já aprendera a pedir pouco. É que a mãe de uma amiga minha resolvera fantasiar a filha e o nome da fantasia era no figurino Rosa. Para isso comprara folhas e folhas de papel crepom cor-de-rosa, com os quais, suponho, pretendia imitar as pétalas de uma flor. Boquiaberta, eu assistia pouco a pouco à fantasia tomando forma e se criando. Embora de pétalas o papel crepom nem de longe lembrasse, eu pensava seriamente que era uma das fantasias mais belas que jamais vira.
Foi quando aconteceu, por simples acaso, o inesperado: sobrou papel crepom, e muito. E a mãe de minha amiga - talvez atendendo a meu mudo apelo, ao meu mudo desespero de inveja, ou talvez por pura bondade, já que sobrara papel - resolveu fazer para mim também uma fantasia de rosa com o que restara de material. Naquele carnaval, pois, pela primeira vez na vida eu teria o que sempre quisera: ia ser outra que não eu mesma."




(Trecho de Restos de Carnaval de Clarice Lispector)



Bom Carnaval para todos:)

5 comentários:

Janaina Amado disse...

Lindo, este texto da Clarice. Não conhecia.
Ótimo carnaval pra você!

Eliana Mara Chiossi disse...

Renata,

vamos tomar nosso cafezinho, para celebrar as Fábulas Delicadas que estão no forninho da Editora Escrituras.
Estou em parafuso, precisando de colo de quem já publicou...

Beijinhos

Eliana

Lidi disse...

Adoro este texto de Clarice. O trecho, em especial, lembra-me Ernst Fischer: "É claro que o homem quer ser mais do que apenas ele. Quer ser um homem total." (A função da Arte).

Maria Muadiê disse...

oi Renata,
Lorena é a filha de Marluce, sim.
Êta Salvador pequena! ~
Um beijo
PS: esse texto de Clarice é maravilhoso!

Renata Belmonte disse...

Bjs, queridas!