12 de jul de 2009

Uma aula sobre elegância


Hoje, tomei conhecimento do clima desconfortável que se instalou entre duas mulheres que admiro: a escritora Lygia Fagundes Telles e a atriz Maitê Proença. Tudo por conta do título "As meninas" que, segundo Lygia (autora de célebre romance com tal nome), foi "roubado" por Maitê, autora de uma peça homônima. Segundo o jornal Folha de São, Lygia declarou que a atitude de Maitê foi uma "safadeza" e que sua vontade era ir "à estreia dela no Rio, subir no palco e chamá-la de ladra."


Em resposta às declarações de Lygia, Maitê publicou, no jornal O Globo, um texto intitulado "Fica brava, não, Lygia", onde ela explica para o público todo o real contexto da desagradável situação de forma gentil, leve e generosa.


Não faz muito tempo, estava conversando com um amigo sobre outra polêmica literária: o suposto plágio cometido contra o escritor Moacyr Scliar. Nesta ocasião, não deixamos de exaltar a postura elegante do escritor brasileiro que, no texto "Um estranho incidente", comenta o assunto de maneira muito inteligente. Coerente com seus princípios artísticos, Moacyr conclui que " Literatura não é fonte de contentamento. Nem é coisa que possa ser feita pelo membro de um bloco. Ela é, essencialmente, um vício solitário. Isto não quer dizer que tenha de ser praticada numa isolada torre de marfim. A grande literatura inevitavelmente reflete o contexto social da época. Mas o faz como um sismógrafo, cuja agulha desloca-se como resposta a movimentos profundos. Espero que isso tenha acontecido, ao menos em parte, ao menos em pequena parte, com uma história chamada Max e os felinos. Todo o resto, francamente, não tem muita importância."


Lygia tem todo o direito de ter ficado aborrecida com o incidente. Repito: com o incidente. Jamais com Maitê, que tanto se esforçou para trocar o título de sua peça com o único intuito de não aborrecer a autora. Lygia foi deselegante? Sem dúvidas. Mas, sim, é verdade: não acertamos sempre. Declarações tempestuosas fazem parte da vida e temos que aprender a perdoar e nos perdoar por elas.


Na última semana, muito se falou do fraque branco com que se casou o jogador Alexandre Pato. Nos blogs de moda, chamaram o rapaz de "cafona" e sugeriram que ele procurasse a consultora Glória Kalil para ter aulas de elegância. Eu, neste momento, faço outra indicação: Moacyr Scliar. Este, sim, com certeza, é mestre no assunto. Copiar seu comportamento, com certeza, é um plágio que vale a pena.

24 comentários:

maria guimarães sampaio disse...

gostaria de ler o texto de Maitê. Para te dizer a verdade, tentei muitas vezes ler um livro de Lygia, jamais consegui. De Maitê conheço o bom trabalho como atriz e alguma coisa das crônicas (na Isto é?). Porém, meu olho (de fotógrafa? ou de tandera?) muitas vezes me diz muito. Meu olho me diz,o rosto de Maitê não é só beleza externa e a cara de Lygia... uma coisa dura, aborrecida - até quando ri.

Andréia M. G. disse...

Eu adoro Lygia, mas como vc mesma disse, nem sempre podemos acertar. E pq temos que ser elegantes o tempo inteiro? A deselegância tb faz parte da vida. Não sabia desse entrevero entre ela e Maitê. Admiro a postura assumida por Maitê, mas o rompante de Lygia não tira o brilho de sua obra, que para mim, é excelente. Tenho uma relação de amor com "As meninas".

Sobre a roupa de Pato, detesto essas convenções de moda. Deixa o homem se vestir como quiser. Se eu me casar, ninguém espere de mim vestido branco, pois quero mesmo é me casar de vermelho ou quem sabe alguma outra cor que fuja dessas convenções. Deselegante? Brega? Mas feliz! rs

Renata Belmonte disse...

Andréia,
Assino embaixo do seu comentário! Concordo, plenamente.
E também detesto essas "convenções" de moda. Brega para mim é ficar julgando o que os outros devem ou não fazer e usar.
Bjs!

aeronauta disse...

Renata,
li tudo, assim que cheguei; seu texto, o de Maitê, de Scliar, e o do blogue sobre o Pato. E concordo com sua postura, bem sensata, num texto bem-escrito.
Concordo também com Maria: nunca consegui ler Lígia: é uma chata de galocha. Quanto a Maitê, o texto dela em resposta a Lígia (primeira coisa dela que leio) é de uma delicadeza, de uma riqueza de alma, e, além de tudo, indicativo pra se perceber que quem o escreveu conhece muito o universo mágico da escrita.

Gerana Damulakis disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Renata Belmonte disse...

Será, Gerana? No começo, até pensei nisso, mas achei o texto da Maitê tão sincero... Por que ela tentaria trocar o título da peça se estivesse agindo de má-fé? Me parece que ela tentou fazer isso para não aborrecer a Lygia, mas foi impedida pela burocracia.
Nunca saberemos com exatidão se foi esperteza ou não. Por isso, prefiro acreditar que tudo não passou de uma confusão.
bjs

Viviane Costa disse...

Nunca li Lygia e acho Maitê péssima atriz, sempre com as mesmas expressões, os mesmos trejeitos, que não se distanciam muito do que ela é. Mas já li alguns textos dela e gostei muito. Muito mesmo. Agora acho que "As Meninas" não é um título lá tão sagaz ou criativo a ponto de virar cobiça de terceiros, não. É quase como "Minhas Férias", o título que encabeçou todas as minhas redações do primário.
Beijos, amiga!

Bernardo Guimarães disse...

Maitê 1 X 0 Lygia.

Nilson disse...

Em resumo, Moacir Sclyar é o cara!

Gerana Damulakis disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Fragm disse...

Oi Renata,
Texto dotado de sensibilidade e coerência!!!
Parabéns e obrigada pela ilustre visita a meu blog!!!
Beijus!!!

Mayrant Gallo disse...

Não vejo motivo de aborrecimento, afinal de contas "as" e "meninas" são duas palavras da Língua Portuguesa e que qualquer pessoa pode usar; não são de propriedade de Lygia F. Telles. Se ela se aborreceu, é porque há algo mais, provavelmente quanto ao assunto da peça, semelhante talvez ao do seu romance. Ou então Lygia está ficando "egogagá"... Tudo é possível. O certo, como propõe Renata, é que o texto de Scliar é de uma elegância sem par. Para poucos.

Non je ne regrette rien: Ediney Santana disse...

O que a Lygia e sua enfadonha literatura não sabem é que a Maitê buscou inspiração para o nome da tal peça em um morto vivo grupo de axé gestado na barriga da WR em Salvador.
Faça-me uma garapa, senhora Lygia, é a senhora mesmo a autora da tola e comum expressão “as meninas”? A senhora inventou a língua portuguesa e toda sua semântica. Parabéns por contribuir com a venda de jornais de intrigas, seu dia de Xuxa será inesquecível, para a senhora é claro.
Deixe-me!! O cenário cultural no Brasil ta tão insosso que até damas da TV e academias anêmicas de letras fazem qual coisa para chamar atenção, quando o que deveria chamar atenção era o trabalho e não as ridícula polêmicas tão vazias quanto seus personagens de pasquim barato. Quem afinal leu o tal “As meninas”? Creio que pouca gente, mas a editora que publicou essa obra essencial para a cultura mundial já deve ter mandado fazer uma nova edição e os leitores- lista da Veja vão correndo comprá-lo. E a tal peça vale alguma coisa? Deve ser mais uma dessas comédias irritantes que infestam o teatro brasileiro, como aqui na Bahia todo mundo é filhote da chata “A bofetada”, vem para cá Maitê que o sucesso é garantido, como bons nordestinos adoramos o lixo cultural do sul e já estamos quase igual a vocês.
Bofetada em nossa cara. Tanta bobagem no teatro, na literatura, no cinema... Sei não, vou ao boteco do Mariano no Bairro do Sacramento, onde vivo aqui em Santo Amaro, beber minha cervejinha de início de noite e sonhar com a Maitê, se ela não escreve bem e nem atua bem ao menos é bonitinha e pena que não ordinária.

Críticas Criticáveis disse...

...afinal nada se cria, tudo se copia...

Andréia M. G. disse...

Vejo que por aqui não há muitos apreciadores da literatura de Lygia F. Telles, mas viva a liberdade de expressão!

Rubervânio Rubinho Lima disse...

Saudações cibernéticas, cara senhorita dona desse blog.
Na realidade, meu comentário não será a respeito desse post, mas sim do seu belíssimo livrinho homonimo do blog, que a amiga feirence Lidi me apresentou, que li ontem numa sentada e gostei demais.
Adorei a maneira como, de forma fragmentada, você sai jogando com o tempo da narrativa, e com a personagem em sua visão de si, eu sua visão de si, mas com uma narrativa em terceira pessoa e pela arrumação que você conseguiu fazer no texto. Divino.
Em outra oportunidade desejarei expressar mais da minha visão de leitor.

Agora fiquei mais que instigado em conhecer seus outros escritos.
vou ver se a amiga Lidi 9ciumenta com seus livrinhos0 de repente não me apresenta outro....

Estou louco para ler os contos seus, que ela fala tanto.

Antes que esse comentário vire um livro, gostaria de te convidar para dar uma passadinha pelo meu humilde blog, "Conversas do Sertão" e acompanhar alguns escitos e tinrinhas que tentam trazer um pouco da fantástica mágica do povo dos matos, da roça, com histórias fantasiosas pra lascar.
um abraço virtual, senhora enígma.

Renata Belmonte disse...

Super obrigada! Farei uma visita agora ao seu blog! E já estou pensando em contratar Lidi como minha RP!(rs)

Bárbara Jolie disse...

De toda essa confusão armada fico com a elegância e a sensibilidade da terceira escritora - Renata Belmonte.

Renata Belmonte disse...

:)

pig disse...

Quem tinha direito à revolta era DIEGO VELÁZQUEZ...

e ninguém lembrou disso!

Renata Belmonte disse...

Maitê lembrou de Velázquez e de outros. Leia o texto dela.
Bjs

Wladimir Cazé disse...

Oi, Renata. Salvo engano da minha parte, título de obra não é objeto de direito autoral. É por isso que Jean Wyllys pode publicar um livro intitulado "Ainda lembro" (música de Arnaldo Antunes e Marisa Monte) e Gustavo Rios, um livro chamado "O amor é uma coisa feia" (música da banda de rock Klaiderman). Da mesma forma, qualquer um de nós pode publicar um livro chamado "Agosto", "Os sertões" ou "História do Brasil". Dona Telles pisou na bola.

Kátia Borges disse...

Oi, Renata, demorei a entrar nesse debate. Gosto de Lygia, Maitê não me diz nada. Após ler o texto publicado em O Globo, vi que a questão passa longe do autoral. O lance é que vai estrear outra peça, adaptação do texto de Lygia feita por Maria Adelaide Amaral, e aí as duas peças estarão em cartaz com o mesmo nome. Comercialmente, prejudica a de Lygia, já que a de Maitê já estará em cartaz quando a outra estrear. Acho que é apenas essa a razão da revolta da escritora.
Kátia Borges

Renata Belmonte disse...

Foi uma infeliz coincidência, né? Parece-me que, quando a Maitê tomou conhecimento do fato, tentou mudar seu título, mas não conseguiu por causa dos patrocinadores. Tomara que tudo se resolva da melhor maneira para as duas.
bjs