15 de nov de 2008

Um Estado de Fracos


Vivemos num Estado de Fracos. Ontem, esta foi minha constatação ao escutar a história de um conhecido. Jovem e muito entusiasmado, ele conseguiu entrar no Mestrado da Universidade mais prestigiada do país. Professor de Direito de outra instituição, ao ver no site desta que os currículos de seus colegas continham informações sobre suas formações acadêmicas, requereu à secretaria do curso que colocasse na sua biografia a sua titulação. Dias depois, ao entrar novamente no site, descobriu que todos os currículos já não mais mencionavam as Universidades nas quais os professores tinham completado sua formação. A explicação para isso? Este meu conhecido havia deixado os colegas numa situação difícil, pois ele era oriundo de um lugar com muito mais reconhecimento e isso incomodava os outros docentes. Portanto, para não ocorrer desentendimentos, a secretaria achou por bem não mais fornecer tal tipo de informação.

Bem vindos ao Brasil: um país que não desculpa aqueles que são bem sucedidos. Ou melhor: um país hipócrita que se vale da roupa da humildade para relativizar os méritos daqueles que realizam seus sonhos e objetivos.

No Brasil, costuma-se adotar um discurso desprendido, critica-se qualquer um que tenha dinheiro. Utilizando-se de uma lógica excludente, o "povo brasileiro" atribui a culpa de sua pobreza a qualquer um que tenha mais recursos. Como se estes fossem os únicos e verdadeiros responsáveis por sua desgraça. Como se estes tivessem que carregar nas costas uma cruz por terem tido força suficiente para seguir em frente. É claro que existem empresários terríveis e inescrupulosos. Mas será que todos no mundo só concretizaram seus objetivos pisando nos outros? Claro que não! Outra coisa: se somos tão desprendidos, se consideramos o dinheiro como algo supérfluo, " coisa de americano", por que nos preocupamos tanto com isso?

No Brasil, se você consegue ter uma boa formação acadêmica, ao invés de ter seus méritos reconhecidos, escutará alguém relativizar sua conquista. Sempre terá alguém que dirá que tal pessoa " estudou porque podia" ou que "grandes coisas isso, vai virar um desses idiotas que nada conhece da vida". Sim, é verdade, sabemos o quão esse discurso é vazio. Mas o problema é que sentimos muita pena desses fracos, somos paternalistas, fingimos acreditar no que eles dizem.

Recentemente, uma pessoa me falou que o Exame de Ordem era um absurdo, já tinha prestado quatro vezes e perdido. Na mesma hora, respondi: quando você estudar direito irá passar. Devo ter sido considerada antipática, mas o que eu deveria fazer? Negar a importância do exame? Ser solidária à ignorância alheia? Desconhecer o mérito daqueles que se esforçaram e conseguiram passar?

No Brasil, se você é uma pessoa considerada bonita deve entender como naturais abusos de todos os tipos. Isso inclui grosserias masculinas e situações muito desagradáveis. Sim, sabemos que tudo é fruto de uma "inveja institucional", já irraigada. Mas por que mesmo fechamos os olhos para isso e ficamos desculpando estes outros tão preconceituosos? Se reclamamos tanto da impunidade que toma conta do país, por que agimos da mesma forma na nossa esfera privada?

Tenho uma teoria: somos muito narcisistas. Gostamos de parecer superiores e, ao mesmo tempo, humildes. Por isso, não colocamos ordem na casa. Por isso, acabamos nos nivelando com aqueles que tanto desprezamos: os fracos.

Bem vindos ao país onde ninguém liga para dinheiro, onde não é bom estudar, ser inteligente ou bonito. Bem vindos. Mas não esqueçam de trazer suas máscaras. Senão nesta festa vocês não irão entrar.

12 comentários:

Gerana disse...

Parabéns, Renata: este foi o melhor texto que li aqui no Vestígios. Endosso as suas palavras! Mas, seguramente, muitos irão torcer o nariz porque, como você diz com outras palavras, as pessoas que não alcançam os objetivos acham mais fácil (já é um hábito) culpar os que alcançaram.

Mayrant Gallo disse...

Renata, em geral a humanidade não presta... Que se há de fazer? E até que se "descubra" outra sempre será assim: pobrezinhos numa ponta, canalhas na outra.

Luli Facciolla disse...

É... a mim a ignorancia incomoda mais do que joanete!

Rê:
Muito obrigada pelo carinho...

Beijos

Renata Belmonte disse...

Gerana: Obrigada, fico feliz que você gostou. Me aborrece muito observar este tipo de comportamento.

Mayrant: Aqueles que não fazem a vida acontecer adoram culpar o outro pela sua inércia. Que triste isso, não?

Luli: Que você fique em paz, nesse momento.
Bjs para todos!

Luíza disse...

Renata, quanto tempo que não venho aqui.. a vida está diferente agora, daí sumi do meu blog.. mas venho aqui as vezes sim...
Obrigada pelos parabéns.. esses dias estava arrumando meu armário e encontrei teus livros lá.. qualquer dias desses vou reler..
Fiquei feliz em saber que tu tem um curta, há algum lugar onde posso encontrá-lo??

Enfim.. qualquer dia desses volto a escrever por lá.
Beijos
Lu

Flamarion Silva disse...

Renata, o seu texto me fez lembrar de um meu, ficcional, há muito esquecido.
Este assunto envolve tantas coisas, escancaradas e mascaradas, que deixa o povo confuso. Por isso, criei o Benício.

..."O Benício era um ladrão. Ladrão por natureza. Desses que roubam a comida alheia para se manter. Desses que são capazes de invadir sua casa, urinar na sua comida, rasgar suas roupas e, depois de ter-se saciado, ir entocar-se num buraco até que lhe bata ao estômago o primordial instinto básico: o de comer. A propósito, instinto que, num primeiro olhar, também movia o homem que me apareceu na calçada, recostado a um poste. Mendigo maldito! Por todo canto do país esta praga se alastra, e se transforma. Hoje já não se pede esmola por necessidade: pura safadeza! Não estendem a mão para suprir a fome que lhes mata. Estendem-na para roubar quem sua a camisa. Eu não dou esmola, nunca dei, nem nunca darei. Não é de meu feitio alimentar doença.
O Benício é um ladrão, é verdade, mas ele tem caráter e hombridade naturais, qualidades que passam longe de quem é pedinte. Em uma única coisa se assemelham: na astultícia. Sendo que, no Benício, este movimento do raciocínio se converte em algo nobre. No mendigo é autopiedade e sem-vergonhice."...

Bernardo Guimarães disse...

valeu, Renata! pau nos hipócritas!

aeronauta disse...

Texto bastante lúcido. Parabéns!

Jana disse...

O problema é o maldito EGO.
E os pré-conceitos, que arruinam com toda e qualquer forma de civilização.
Ao invés dos que ainda não tem buscarem conseguir, os que já conseguiram precisam fingir que não tem.

Mierda!

:)

Renata Belmonte disse...

Flamarion,
Manda o seu texto para mim!
Bjs

Imcompreendida disse...

Nossa esse texto é sincero que dói... Muito bom!!! bem realista, somos assim mesmo, não tenho uma opinião formada do porquê, mas admito que somos...

Um abraço,

José Ricardo da Hora Vidal disse...

Cara Renata Belmonte. Sinceramente, você desnudou o rei com este post!!! Nestas horas, como não se lembrar de Nietzsche? Infelizmente, o que rege o "Brasil" é a moral do rebanho: todo elogio deve ser aceito com falsa modéstia, tudo deve ser nivelado pela mediocridade, aceitação incondicional do senso comum mais obtuso (Caso ele seja o consenso do rebanho). A fraqueza e a mesquinhez são virtudes e a culpa é dos outros. Isso é terrível!!! Eu observo isso bem aqui na minha própria casa, com meus pais... De vez em quando eu ainda ouço alguns rompantes ressabiados como "não sei pra que ler tanto" ou "você sabe a teoria dos livros, mas não conhece a prática da vida" - principalmente como resposta à alguma crítica mais aguda contra alguma crença baseada em preconceitos. É duro viver num país assim... Felizmente, Renata, temos blogs como o seu que aparecem como oásis de bom-senso e nos animam a seguir em frente... Um abraço sincero deste vosso fã.