16 de out de 2007

Uma nova vida para Renata B.

Nos últimos tempos, venho me sentindo levemente entorpecida, com a sensação de que tudo que vivo é sonho, um destes sonhos que não fazem sentido, mas que aceitamos durante o sono como algo bastante lógico e coerente. Talvez eu esteja assistindo filmes demais, essa é a primeira das hipóteses.
É certo que tudo tem seu fim e a noite de hoje não foi diferente. Neste último lançamento do Outras moradas, tirei fotos sorrindo, encontrei pessoas amigas, conheci pessoalmente outras pessoas amigas, me tornei amiga de pessoas que apenas conhecia. Tudo ao som de jazz, que preferi inventar ser bossa-nova: assim pude acreditar que a sensação vagamente familiar que me tomava nada mais era do que a identificação do momento com os eventos que acontecem nas novelas de Manoel Carlos. Talvez eu esteja assistindo novelas demais, eu sei. Essa também é uma das minhas hipóteses.
Que vivemos eternamente de fantasias, sempre tive certeza e jamais neguei as minhas. Mas eis que conto a cena mais surreal deste meu último sonho: onze escritores sentados ao mesmo tempo numa pizzaria. Duas mesas, papo agradável, clima descontraído. Eu, no meio deles, eu, que sempre evito conviver com grupos por medo de abusos coletivos de compreensão. É madrugada, sim, sei. Mas estou acordada e o que narro não surgiu durante o sono. É a minha realidade, esta que vem me causando muito mais estranheza do que os filmes do David Lynch.
As pessoas que foram ao lançamento do Outras moradas não desconfiam que eu morro de medo de autografar os meus livros. Sempre acho que escreverei alguma coisa errada, que direi algo tolo, sem sentido. As pessoas que foram ao lançamento do Outras moradas nem desconfiam que temo não corresponder o tamanho de sua consideração. Sou bastante esquecida e sofro muito quando sou desatenciosa com aqueles que são bons comigo. As pessoas que foram ao lançamento do Outras moradas e me viriam com aquele vestido dourado, desconhecem a angústia que sinto durante as minhas festas: tento sempre prolongar os momentos que vivo, não gosto de aceitar o fim das coisas.
Algumas pessoas que conheço e dizem que gostam muito de mim não tem comigo a menor consideração. Outras, que mal convivo, nutrem por mim afeição. Meu irmão, outra dia, brigou comigo e disse: pobre de você que vive de migalhas de felicidade. É, talvez ele tenha razão. Porque permaneço aqui, nesta noite, com fome. Mas sempre embriagada de vida.

15 comentários:

Gustavo Rios disse...

ainda que seja ilusão, devemos manter um olhar mais ou menos atento. talvez isso tire um pouco da felicidade que deveríamos sentir pelnamente no momento. mas é o olho do escritor, querida. ele é foda. ao menos o meu funciona também assim. ainda que exisam pessoas afins e pizzas de atu sendo servidas. no mais, sorte. no mais, compro o livro depois. além do outros seus lá na LDM.

ângela vilma disse...

Texto maravilhoso para começar a manhã de hoje. E também para eu sentir um gostinho de tristeza por não ter participado dessa festa linda. Parabéns, amiga, você merece esse sonho real. Abraços, Ângela Vilma.

Entre aspas disse...

Bem Renata.Lindo texto, sinceridade profunda.E te digo, concordo com o brillante poeta espanhol "se que toda la vida es sueño , y los sueños ,sueños son"
A felicidade e um trem que se controe aos poucos, lentamente...Eternamente,com um bom punhado de amigos, e uma noite de lua.

Um abraço de Georgio Silva

Mayrant Gallo disse...

Renata, foi uma satisfação, mais uma vez, comparecer ao lançamento de um livro seu. Espero que eu vá ainda a muitos. Tenho a impressão de que você sempre está muito feliz durante o processo, o que raramente acontece comigo; e não é pose, nem fleuma. A sensação (inevitável) é a de que um livro é só uma coisa a mais... E sabemos que não é. Abraço, Mayrant.

Personagem Principal disse...

Te mandei um email.

Ricardo disse...

seu texto me incomodou, no bom sentido.
antes de tudo, poderiamos pensar o que seria felicidade nos dias de hoje. o que é ser feliz.
algo complicado....

parabéns pelo lançamento.
abraços

Luíza disse...

apesar de toda a melancolia presente gostei do teu texto. é bom te ler e ver sinceridade nas tuas letras. deve ser uma sensação estranha, mas gostosa no fundo, afinal, mais um livro neh.
mas enfim... eu, mesmo sem te conhecer, já tenho um carinho por ti e gostaria de ter te visto neste lançamento.parabéns.sorte.fé.
Beijos, Lu.

fernanda disse...

Renata!
(mais um comentário bíblico! hehe)

Vim apenas deixar um recado e me deparo com esse seu texto que, seguramente, foi um dos mais bonitos que li aqui.
Sempre tive uma certa preguiça em analisar as pessoas. As minúcias são,normalmente, pontiagudas e a verdade é que eu sempre me cortei com coisas bem mais superficiais.
Então, como escudo, ou mediocridade consciente, ou , ainda, como pretensão de estar acima disso tudo, nunca fiz muitos juízos de valor e aceitava (e achava normal) antíteses muitas vezes inconciliáveis –há as que são-, em mim, mas sobretudo nos outros.
O melhor em lhe “conhecer”, nesse seu último lançamento, foi ter percebido que minha tecla “espanto” não está tão enferrujada assim, embora ela nunca tenha funcionado bem.
Saí da livraria atônita com seus olhos verdes, que em alguns momentos me pareceram marejados, e com sua simplicidade vestida de dourado.
Docemente antitética, bcomo você é acessível Renata! Primeiro, me confundiu com outra pessoa (hahaha),depois me apresentou,rapidamente, às melhores amigas e por fim me falou de suas perspectivas.
Ah!e como eu poderia esquecer! Me fez a pergunta mais desconcertante dos últimos tempos: “E você escreve também!?” Não sei se vc notou minha nudez: “Eu!? Não. Eu não escrevo.”
Pacote flácido estatelado no chão, livraria deserta, roupas arrancadas. Foi quase um: “E você gosta de sexo tântrico também?”hahaha..Não estou acostumada ao “clima familiar das novelas de Manoel Carlos”,escrever pra mim, sempre foi tomar em assalto algumas palavras, e ,como um bom assalto, algo bastante velado e cheio de precauções.
Bom, mas depois de toda essa epopéia, eu ainda entro aqui e me deparo com um texto tão sincero e generoso. Mais espanto. Abri um sorriso de orgulho e senti um medo. As pessoas ainda não estão acostumadas com terrenos férteis que são bonitos, gentis e que vestem vestidos dourados. Tente entender se vc chegou antes ok?
Enfim, é isso.
Obrigado pelas migalhas de felicidade de segunda. Também me alimento delas.
Aliás, eu ainda prefiro os farelos. Deus me livre engolir uma broa de felicidade! Adoro a minha fome de cada dia. E é ela quem imprime em cada instante meu, um selo de individualidade e de busca eterna por INsaciabilidade.
Além do mais,
odeio ficar empachada.

Sucesso,beijos!

Anônimo disse...

Vamos seguindo, Renata, vamos seguindo. Aquele abraço. T

Personagem Principal disse...

Ave Maria... eu admito que tinha preguiça de ler os comentários bíblicos de Fernanda Garibaldi, mas tomei coragem hj e me encantei. Que lindo, hein, Renatilda?

fernanda disse...

Heuheheuhe,dei uma risada adorável quando vir seu comentário Personagem!"brigado"..de verdade.
Sorte de vcs não conviverem comigo,eu falo pelos cotovelos mesmo(com gente que eu tenho o mínimo de intimidade)e,na maioria das vezes,os assuntos são de uma frivolidade mórbida:o rosto de Dalton Vigh transfigurado na novela,o novo paquera de Ivete e até do Bahia pleiteando subir pra segunda divisão eu ando falando (eu,que a uns dias atrás não sabia nem o que era escanteio).
Esse negócio de falar sério só na análise,ou com uns poucos amigos(as)íntimos e no blog de Renata,claro.
Beijos!

Renata Belmonte disse...

Leitores, queridos,

Obrigada por todo o carinho de sempre!
Beijos,
Renata

O Sibarita disse...

Dona moça Renata! Escrever é tudo é ou não é? kkkk

Oi não se sinta com medo de autografar, ao escritor, é dado todas as possíbilidades... quem não ficaria satisfeito, ainda, que seja um risco, um rabisco de um autor no dia do lançamento? Isso é o máximo para nós mortais leitores, faça fé!

Falo isso, como leitor, porque nunca lancei um livro, então, quando vou a lançamentos e que o autor escreve qualquer coisa ja me dou por satisfeito porque entendo perfeitamente que naquele momento são tantas as pessoas para o autor atender, dar atenção que é impossível ele fazer uma boa dedicatória ou coisa semelhante, é isso!

Oi pelo seu texto vê-se logo que você é ouro em pó! Então, tá tudo azul...

bjs
O Sibarita

Álvaro disse...

Tinha que comentar mais esse.
Mais um que tenta prolongar festas, angústia enorme na hora de ir embora. Sentir as coisas acontecendo parece efeito de droga.
Enfim, tenho criado teorias a respeito disso.

Beijo.

Lidi disse...

Renata, adorei esse post. Que pena não ter conhecido tua literatura antes. Quanto tempo eu perdi. Adorei também o comentário de Fernanda e o de O Sibarita. Assino em baixo.