4 de set de 2008

Os aiatolás culturais


Em 2003, após o lançamento de Femininamente, fui convidada para participar de um evento literário. Única mulher da mesa, aos vinte e um anos de idade, eu estava me sentindo super feliz por ter recebido tal convite. Mas, ao responder uma das perguntas da platéia, fui apresentada a um tipo de gente que não conhecia: os aiatolás culturais.
Os aiatolás culturais são pessoas que se acham acima de todos e que se sentem no direito de diminuir e distorcer qualquer opinião alheia. Não, ninguém pode discordar de nada do que diz um aiatolá cultural. Caso contrário, poderá incorrer em penas gravíssimas!
Os aiatolás culturais são facilmente reconhecíveis. Costumam, em qualquer de suas frases, citar Schopenhaur ou Baudelaire, falam muito, mas não dizem nada. O olhar do aiatolás culturais sobre os artistas mais jovens é sempre depreciativo, não, eles não conseguem admitir as novas gerações. E o mais curioso disso tudo é que os aiatolás culturais geralmente não são pessoas de alto quilate intelectual. Muitas vezes, são apenas seres que se autodenominaram grandes pensadores.
Não raro, encontro com alguns aiatolás culturais. E, quase sempre, é a mesma coisa: eles me aplicam provinhas. Com tom arrogante, indagam quais clássicos já li, qual o meu filme indiano favorito, dentre outras coisas. Quase sempre, quando isso acontece, fico prendendo o riso. Qual será a pena para quem não leu Joyce? E para quem não gosta de teatro? Cuidado, Bernardo e Aeronauta... É possível que, qualquer hora dessas, chegue um policial nas suas casas...
Esse fundamentalismo artístico é uma bobagem, ignora o quanto as pessoas são plurais. Adoro o Vestígios por isso: sempre aparece por aqui alguém bacana para dividir suas opiniões.
Sim, eu vou continuar adorando seriados americanos, Pop Art e rock. Não, eu não vou me fantasiar de descolada para que alguém acredite que sou uma escritora de valor. Sim, eu amo cinema e literatura. Qual é mesmo o problema de se gostar de muitas coisas?
Não, eu não sinto raiva ou qualquer sentimento negativo pelos aiatolás culturais. Na verdade, eu sei que eles são apenas crianças que não aprenderam como lidar com sua própria dor.

12 comentários:

Luli Facciolla disse...

Xi... Igual ao Igor Matheus lá do Tolices S/A (http://tolicessa.blogspot.com/2008/08/quem-igor-matheus.html)...
Se bem que eu acho que o Igor nem é um aiatolá... tá mais pra aprendiz...

A saber: EU (que nem sou critica nem nada...) gosto muito do que vc escreve! Não seria diferente com o que vc fala, né?!
Se ninguém mais gostar, o que eu acho muuuito difícil, saiba que EUzinha gosto!

E, o que é Joyce mesmo?! Xi... não li... e agora?! hehehehe...

Beijos!!!

Gerana Damulakis disse...

Nossa, já passei por isto! Até hoje há os não acreditam que eu gosto é de Madonna (tomara que chegue dezembro!)e, pior ainda, de Robbie Williams. Parece que não pode combinar com Tostói, com Ian McEwan, com Cortázar etc...mas eu sou assim. Temos o direito de usufruir da pluralidade.

Bernardo Guimarães disse...

Aiatolá brasileiro, pra mim, é baixo clero! São uns babacas. Quem é realmente importante, lhe dá importancia. Se eles chegarem à minha porta, grito que não gosto de teatro; quando cairem duro, berro que não gosto de música. Quando se estrebucharem, bato a porta.
Adoro cinema e literatura, mas não deixe eles saberem, só de pirraça!

maria guimarães sampaio disse...

Estou rindo, porque não é só com os jovens que eles implicam não... e rindo mais ainda com saudade de meu pai que chamava essa láia de "intelectualóides" e se fosse caso grave de aiatolice, "intelectualóides de merda" (já botei isto em boca de personagem meu). Sem contar os "poetas do suvaco ilustrado".

Personagem Principal disse...

Esse tipinho é odiável mesmo. E, muito embora, eu seja bastante careta em muitos aspectos, neste sou fã dos anarquistas que fogem do esperado e respondem verdadeiras pérolas, dignas de constranger qualquer aiatolá chinfrim. Minha leitura preferida é Vogue e passo o dia com o rádio ligado em Evidências de Fagner, qdo não em Wando. Hahahahah. Beijocas.

aeronauta disse...

Ah, meu Deus, como as rodas literárias trazem esses tipos: são os que fazem vida literária (mal feita) e não literatura!

Rodrigo disse...

relaxa.

Luciana disse...

Uma das grandes vantagens dos blogs eh exatamente poder fugir desse tipo de julgamento. Dah espaco para todo mundo escrever o que quiser...e como sai coisas boas!

Parabens pelo blog.

Bjo!

Eliana Mara disse...

Renata,

li o post e queria dizer algumas coisas que na verdade voc� j� disse e de alguma forma, serve como desabafo para mim tamb�m.
Mas me lembrei de algo engra�ado. Quando eu morava em S�o Paulo, havia sempre uma campanha para populariza�o do teatro, cujo slogan era: V� ao teatro.
A� fizeram umas camisetas bem descoladas com a seguinte frase (que eu acho que era dirigida aos aitol�s culturais):
"V� ao teatro, mas n�o me chame!"

Esse pessoal pode estar inclu�do naquele grupo que o Italo Calvino diz que por n�o ter coragem de dizer que n�o leram um "cl�ssico" dizem: Ah, estou relendo...


Beijo!

Artur disse...

é, este tipo é bastante comum. do jeito que as coisas vão, não adianta muito proclamar conclusões na frente dos outros. àquele que é artista, resta criar. há alguém que pode julgar melhor que qualquer ayatolá, e este é o Tempo. não há nada errado em não gostar de joyce ou de shakespeare. mas, eles são geniais sim! não gosto de Proust, mas ele fez algo importantíssimo sim! eu possuo "meus escritores" e eles não são o de muitos outros. com você há o mesmo. é gosto. não da pra ficar recrimimando quem nao gosta disso ou daquilo, isso é ridiculo! mas acho que vivemos o tempo dos equívocos, onde muita coisa ruim está sendo tida como incrível. sempre foi assim, isso é que ninguem lembra. imaginemos quantos escritores existiam na época de Nietzsche. muitos com certeza. só se tem noticia de poucos. a humanidade um dia precisará olhar para nós, homens modernos, e quererá achar nossa sabedoria. infelizmente, ela estará em poucos. todo mundo hoje escreve livros, faz musica, faz poesia. o certo é que pouquíssimos serão importantes para o futuro. não é qualquer um que é gênio.
os ayatolás perdem seu tempo, porém possuem a boa intenção de querer ver antes de todos, mas a maioria deles não é muito confiável também.
para mim, o indivíduo que é artista, deve procurar a todo custo o melhor de sua criação intima e não esperar muito deste imenso lixo artistico e cultural que estão difundindo, a nao ser que se faça disso algo belo. cansa-me muito a exaltação da Merda sobre todas as coisas. mesmo nós, sendo seres humanos desprezíveis, possuiremos ainda este defeito(para muitos) de fazer viver certas coisas boas do passado. vejamos o caso de Rimbaud, que hoje é visto como o maior por exemplo, e em vida nada teve. todo mundo que está criando coisas de qualidade está sujeito a ver idiotas serem reconhecidos por merdas.
não estou julgando seus escritos senhorita b, pois nem os conheço. mas, que há gente de bom gosto por aí, isso é certeza. é ótimo que uma obra cause controvérsias, lembre-se disso tambem.
gosto de sua visão de pluralidade, que também possuo. cada um vê à sua maneira, afinal, ninguém é igual. consigo gostar de Moliére e de J. D. Salinger. muita gente pode achar que isso é ridiculo, mas acho salinger um grande escritor. outros dizem que é um idiota que escreve para adolescentes, etc... tenho minha visão das coisas, e me orgulho dela.
gosto de rock e de muitas coisas da cultura pop. tem gente que se diz de espirito superior que abomina. eu não. lembro de Lautreamont, um gênio que tirou dos piores escritores de seu tempo coisas fantásticas e humanamente belas. criou uma obra que sempre será lida justamente porque soube ver que tudo está dilacerado.é uma obra de revolta! a vida é mesmo uma agitação feroz e sem finalidade como alguém disse. vive-la em sua totalidade é impossível, mas vivamos!

*seu blog voltou a me fazer ter vontade de escrever besteiras...
abraço, do antigo Serafim.

Renata Belmonte disse...

Serafim/Artur,
Também acho o Salinger um grande escritor. Volte sempre e com o nome que quiser!(rs)
Abraços,
Renata

Lidi disse...

Ow, Renata, teu blog é 10. Eu me encanto, me inquieto e me divirto! Adorei o post! Certa vez, fui apresentar uma mesa-redonda sobre cinema e literatura (minha temática na iniciação científica) e, na hora do debate, um cara pediu para fazer uma pergunta que, na verdade, foi uma mini-conferência, passou meia hora para perguntar uma besteira. Claro que queria ver se me derrubava, se eu saberia mesmo responder. Também me deu vontade de rir. Esses aiatolás... Adorei a imagem também.(rs) Beijos!