4 de jul de 2008

A questão humana


Eu sempre nutri o desejo de estudar com profundidade os direitos humanos. Mesmo sabendo que, ironicamente, não há mercado na Bahia para tal especialidade. Digo mais: são raras as escolas de Direito daqui que ensinam de forma densa esta matéria. Para que vocês tenham uma idéia, em Salvador, não existe nenhum curso de pós-graduação específico sobre o assunto.
Não é segredo para ninguém que sou completamente apaixonada por literatura. E tenho acompanhado a Flip deste ano através do site Último Segundo. Ontem, assisti a Inês Pedrosa falar sobre a literatura feita por mulheres e fiquei ainda mais encantada com ela. Adoro seus livros, ela é umas das minhas escritoras vivas prediletas. Já pensei em lhe escrever milhões de vezes, mas sempre desisto. Em primeiro lugar, porque não tenho seu e-mail. Em segundo, porque tenho vergonha. Isso mesmo: sou uma pessoa contraditória. Muito falante em algumas situações, tímida em muitas outras. Já me acostumei com isso.
Bom, ontem, também fiquei bastante emocionada com o reencontro da Ingrid Betancourt e seus filhos. Ainda mais com algumas de suas declarações. Coisas do tipo: "Em cada aniversário deles, eu lhes cantava 'Parabéns pra Você'. Mesmo se trouxessem um biscoito ou a refeição tradicional de arroz e feijão, eu fingia que se tratava de um bolo e comemorava o aniversário deles em meu coração". Ou: "Eu sinto como se meus filhos estivessem com suas vidas em suspenso, esperando que eu saísse dali."
Ficar acorrentada pelo pescoço, sem comida ou caminhar entre acampamentos descalça foram apenas algumas de suas provações. Não sei exatamente se a Ingrid é ou não uma mulher bacana, desconheço sua plataforma política. Mas tenho certeza de uma coisa: ninguém merece passar por isso.
Desta forma, acreditava que a maioria das pessoas ficaram aliviadas com sua libertação até ler as declarações de Fernando Vallejo, escritor colombiano, um dos convidados da Flip 2008. O mínimo que este Sr. fez, ao saber da libertação da Ingrid, foi lamentar: "ela era menos uma praga para nosso país”. (Fonte: Todoprosa).
Jamais consegui aceitar qualquer argumento a favor da repressão ou da degradação humana. Nenhuma questão religiosa ou política justifica isso. Nunca. Gente deve ser tratada como gente. Sempre.
Respeito é a melhor das palavras. Não vou desejar que ninguém acorrente numa árvore ou deixe o Sr. Vallejo sem comer. Apenas perdi qualquer eventual interesse pelo que escreve. Porque o que mais amo na literatura são personagens e suas representações do humano. E acho que alguém que se apresenta de tal maneira não entende a magnitude disso. Ademais, penso que também o Sr. Vallejo deveria procurar um lugar para estudar melhor os direitos humanos.

3 comentários:

Fernanda disse...

Renata!!
Meu deus! (só usando essa expressão mesmo) o que foram esses 3 últimos posts seus????????????
Eu sei que existem outros escritores aqui que lêem seu blog, artistas, gente comum que nem eu, que têm angústias semelhantes.. mas não canso de achar que eu fui separada na maternidade de vc!hahaahhaahaha
Primeiro, o post de Hamlet:
"Nasci numa família de pessoas normais, com desejos cotidianos e metas no lugar de sonhos." É extremamente difícil explicar a essa família que vc não se satisfaz com os sonhos (ou metas) que ela tem por você. Em se tratando da minha então, sem comentários.. Apesar dos meus pais adorarem literatura e arte tanto quanto eu (afinal,eu aprendi com eles) seus anseios sempre foram muitos mais pragmáticos...e explicar às suas tias que fizeram Direito, ou à sua mãe promotora que vc não sabe muito bem se é essa vida de funcionalismo público que vc quer, não é muito agradável... ainda mais quando começam com aquele discurso da "estabilidade financeira"...
Depois o post de Freud: Também entrei na análise com 18 anos por obra da minha mãe, que sempre me achou "estranha" (e até hoje acha, junto com minhas irmãs hehehe). Ela, ao contrário do meu pai, sempre acreditou em psicanálise e sabe que precisa retomar as sessões tb...
Foi a maior descoberta da minha vida,sem dúvida. Seu comportamento era EXATAMENTE igual ao meu (ainda não consegui mudar tanto) mas enxerguei com profundidade a falta de nobreza dele (como vc bem descreveu) e venho mudando aos poucos ao longo desses 4 anos....mas ainda é difícil quando se procura ser ético e sensível com todos ao seu redor.
Por fim, esse último post. Amo Inês Pedrosa e quase morro quando soube que ela estaria na Flip. Era pra eu ter ido ano passado com algumas amigas, mas não deu. Ano que vem quero estar lá.
Esse ano era inviável. E pq??? Direitos Humanos. Daqui a 1 mês e meio to indo fazer o intercâmbio que pig fez, só que pra Madrid.
Escolhi uma das melhores universidades (ou dizem que a melhor) da Espanha em Direito, justamente porque essa é a área que me interessa e além de viajar, curtir e bagunçar, eu queria muito aproveitar a experiência acadêmica de estar numa universidade européia. Não é á toa que hoje que eu "acabei" o francês, eu estudo italiano (além do espanhol).
A questão de Ingrid sempre me chamou muita atenção, não só pq eu gosto de política internacional e diplomacia, mas pelo relato do marido dela que eu li na Cláudia. Super-mega apaixonado por ela.
Estou certa que ela não uma política das mais admiráveis, e acho que é preciso ter cuidado com essa "canonização" que a mídia faz com quem ela bem quer, mas é claro que o tratamento que ela recebeu, não se dispensa nem a cachorro. E por isso concordo com vc à respeito da postura de Vallejo. No fim das contas, só fiquei reflexiva com o fato do exército colombiano ter entrado com uma blusa com a imagem de Che.... que ironia.
Enfim, Renatita!
Espero que antes de eu viajar a gente possa se ver (Vivz falou comigo pelo orkut).. No mais, estou feliz de vc estar aqui de volta, para deleite de seus leitores e dos bebês trocados no hospital =)
Bjosss

fernanda disse...

Ah! e depois eu te conto quem foi o professor de Direitos Fundamentais esse semestre na Ufba! Fantástico! Um amigo de um amigo meu, formado a uns 3 anos (lá mesmo) que foi fazer fazer mestrado na Usp e voltou agora e já passou no concurso de professor substituto (pensei aí! ele tem 25 anos!!)Dps te conto quem é essa pessoa...Minha melhor amiga faz direito na Usp e conheceu ele na época que eu disse...coincidentemente ele voltou e foi meu professor hehehe..
Bjossssss

Carlos Vilarinho disse...

A Colômbia é difícil. Procure "NOTÍCIA DE UM SEQUESTRO" de Gabriel Garcia Marquez.
Você vai entender em linguagem literária essa história da Colômbia. É difícil.