2 de jul de 2008

O defeito perfeito


Quando completei dezoito anos, minha mãe resolveu me colocar na análise. Antes contrária a qualquer tipo de terapia, ela deixou de lado seus preconceitos e insistiu que eu precisava de ajuda, que meu comportamento não era normal. Nessa época, eu tinha um namorado que não era legal comigo, mas que eu acabava sempre perdoando. E, desde a infância, convivia com algumas pessoas que não me tratavam corretamente, mas que, mesmo diante dos fatos, eu insistia em chamá-las de amigas. Pois bem, hoje, percebo: durante boa parte da minha vida, eu consenti estar exposta à arbitrariedades. Como se eu pudesse sempre mudar o mundo, como se eu tivesse que perdoar qualquer falha dos outros. O que minha mãe via como defeito, eu achava que era uma qualidade. Mas aceitei sua sugestão. Afinal de contas, não era logo para minha mãe que eu iria dizer não.

Foram através das magnifícas lições do Sr. Freud, que entendi que minha postura não era uma real manifestação de bondade. Muito pelo contrário. Era o exercício de um narcisismo silencioso que insistia em me colocar "superior" a qualquer atitude maldosa ou indevida. Ora, era como se eu secretamente acreditasse ser um ser de exceção, alguém não capaz de atos mesquinhos e pequenos! Foi diante da Dra. S que encarei os monstros que existem em mim e a mais dolorosa das verdades: não, eu não havia realmente perdoado ninguém! Na minha alma, estavam escondidas mágoas e angústias. E era o corpo quem, um dia, pagaria o preço por tal tipo de omissão.

Como a análise, a faculdade me ajudou muito. Nesse sentido, posso dizer até que me tornei outra pessoa: entendi que todos têm um motivo, mas que não devemos amenizar ou ignorar suas crueldades.

Quando completei a maioridade, meu pai, realizando um dos meus maiores sonhos, me deu de presente um carro. Mas, agora, compreendo: foi minha mãe que, com seu olhar atento, me deu as chaves para a liberdade.

7 comentários:

Personagem Principal disse...

Minha mãe acreditava, mas meu pai tb teve que deixar de lado alguns preconceitos. Hoje ele vê que essa libertação, muito embora seja lenta e gradual, é definitiva.

Beijocas.

Críticas Criticáveis disse...

Tem certas coisas q so Freud explica

Mônica Menezes disse...

Renata, que bom que voltou. Olha, adorei a sua presença lá no Seminário. Obrigada pela delicadeza. Beijos.

Franklin disse...

dá-lhe Renata Belmonte !!!!!!!!!

SANDRO ORNELLAS disse...

Belo retorno, Renata.

Anônimo disse...

lindo..

AnAiRaM disse...

Caramba...li e me senti exatamente como vc se sentia.Detalhe: só nao fui "analisada" ainda.
Fuiii..CORRENDO.